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Sexta, 04 de dezembro de 2020
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Coluna

O agronegócio capitalista e epidemias

O número de animais criados para alimentação cresce quase duas vezes mais rápido que a população humana

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Recentemente foi lançado o livro do biólogo evolutivo Rob Wallace, intitulado Big Farms Make Big Flu (Grande fazendas Criam Grandes Gripes), vendido no Brasil pela editora elefante com o título: Pandemia e agronegócio: doenças infecciosas, capitalismo e ciência. A pesquisa busca mostrar a relação entre ciências humanas e naturais, demonstrando que as pandemias dos últimos tempos são o resultado de resíduos agroindustriais e do monocultivo genético. 

Os micro-organismos infecciosos são o resultado da maneira como passamos a criar animais para consumo nos últimos 40 anos. O número de animais criados para alimentação cresce quase duas vezes mais rápido que a população humana, - segundo o IBGE o Brasil tem mais boi que gente. A criação de animais confinada e em grande escala, proporciona a proliferação e a mutação de micro-organismos, pois afeta o equilíbrio da diversidade da natureza.

Na introdução Rob Wallace escreve: “Os seres humanos construíram ambientes físicos e sociais, em terra e no mar, que alteraram radicalmente os caminhos pelos quais os patógenos evoluem e se dispersam. Os patógenos, no entanto, não são meros figurantes, golpeados pelas marés da história humana. Eles também agem por vontade própria, com o perdão do antropomorfismo”.

Parece evidente e direta, a relação da incidências de vírus com o modelo de produção das empresas multinacionais de alimento. Com o desmonte da diversidade funcional da natureza e de sua complexidade, os patógenos armazenados em áreas de reserva ou ali enclausurados digamos assim, se estendem para a pecuária e para comunidades humanas que estão em áreas periféricas da agricultura. Um exemplo disso são o ebola, o zika, o coronavírus, a reaparição da febre amarela, as gripes aviárias, a peste suína e outros tipos de patógenos que saem das zonas mais remotas até locais periurbanos.

A agricultura industrial, diferente de uma agricultura ecológica, oferece meios para que os patógenos possam evoluir em fenótipos mais virulentos e infecciosos. O monocultivo genético elimina a barreira imunológica e facilitam a transmissão, contribuindo para a evolução da virulência. A monocultura genética de animais remove o obstáculo imunológico, facilitando as transmissões e diminuindo a resposta imunológica.

Isso quer dizer que, as pragas em grande medida são uma sombra da industrialização capitalista. Com o surgimento do capitalismo na Inglaterra e a expulsão dos camponeses de suas terra, passa ao uso da monocultura de gado, e assim três pandemias diferentes ocorrem na Inglaterra no século XVIII, tendo como origem o gado, essa mesma peste bovina ataca a África na década de 1890 colonizada pela Europa. Já os  Estados Unidos na década de 30 do século XX, sofre com tempestades de areia – Dust Bowl, resultado da intensa agricultura mecanizada, que deixou vilarejos soterrados. No caso chinês, as explicações sobre de tantas epidemias surgirem no país não são culturais, e sim geográficas e econômicas. Os trabalhadores agrícolas, além de não ter controle sobre suas condições de trabalho, vivem em assentamentos em regiões periurbanas que facilitam a disseminação de muitas pragas resultantes da agricultura industrial.

Segundo Wallace, outra rota de epidemias ocorre pela expansão e pela extração capitalista em áreas ainda não cultivadas, essa expansão empurra os humanos para mais perto desses ambientes e de animais que ali vivem – áreas úmidas, aumentando sua interação, dando ao vírus a oportunidade de sofrer mutações, e isso reduz a complexidade ambiental. Para Wallace, todo surto de ebola está vinculado às mudanças que o uso capitalista faz da terra, o primeiro surto, em 1976 está vinculado a uma fábrica de algodão no Sudão, financiada pelos britânicos, em 2013 na Guiné com a venda de grandes proporções de terra para conglomerados do agronegócio internacional, a indústria do óleo de palma está vinculada com os morcegos, pois atraem as espécies e assim servem como reservatório do vírus. Fazendo com que os pobres do campo, por se sentirem pressionados, avançam cada vez mais para dentro da floresta, ao mesmo tempo em que suas relações tradicionais são interrompidas

Percebemos a emergência na mudança do nosso modelo de produção de alimento e dos animais destinados à alimentação. Por isso temos que incentiva a agricultura e as agriculturas ecológicas, pois essas mantém a complexidade de meio ambiente e sua diversidade, sem isso, teremos que aprender a conviver mais e mais com pandemias, já que a indústria capitalista de alimento se encontra na ordem global. É necessário por isso a socialização dos sistemas alimentares, mas para que isso aconteça, precisamos   reintegrar a produção de alimentos as necessidades das comunidades rurais.

* Marcelo Barbosa é professor da escola pública

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