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Quarta, 05 de maio de 2021
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Coluna

Epístola ao confrade Thiago

Recebidas as sementes de Justiça, é preciso empenho em fazer frutificar obras de Misericórdia.

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Colinas do Tocantins, 13 de março de 2021.

Thiago, meu Confrade caríssimo:

Pax Domini Tecum.

Depois de assistir à homilia do padre Paulo Ricardo, proposta por ti em nosso grupo, resolvi tecer algumas considerações acerca da liturgia da Palavra de hoje, uma vez que a Midrash (a Parábola) contada por HaRabbuni (o Mestre), de tão bela e de compreensão tão motivada (aparentemente, seu ensino está à mão mesmo de uma desatenta apreciação) – cuido que exige (justamente pela extrema beleza de sua mensagem e aparente facilidade em sua compreensão) uma atenção muito refletida.

Assim, convido-te a acompanhar, em meu esforço exegético, todo o conjunto litúrgico da Palavra, a começar, claro está, com a primeira Leitura, tomada ao Sefer Hoshea HaNavi (o Livro do Profeta Oseias): Os 6, 1-6.

Como seu ministério se desenvolveu em tempos, como hoje, muito incertos, cheios de sobressaltos, de magros avanços e duros recuos – o século VIII a. C., cujo desfecho será a dissolução do Reino do Norte, assinalada com a queda de Shomron (Samaria) sob o assédio assírio de 721 a. C. –, os oráculos e exortações de Hoshea HaNavi tendem, grosso modo, a certa reserva – mesmo diante das mais vivas demonstrações de arrependimento e busca de conversão por parte de seus contemporâneos.

Com efeito, o excerto de hoje lavra a confissão pública de que os israelitas, cônscios de haver-se olvidado de Yahweh, se convidam mutuamente a emendar-se de suas faltas (de raiz religiosa, mas de frutos sociais: infidelidade a Elohim, claro está; porém cuja gravidade se materializa na opressão ao próximo; vejam-se, a respeito, os termos do “processo” aberto por Yahweh em Os 4, 1-3) e a reconciliar-se com Yahweh.

Ora, diante de tão bela confissão – cujo termos até prefiguram os três dias da Pesach de Nosso Senhor (Os 6, 2): “Depois de dois dias nos fará reviver, no terceiro dia nos levantará, e nós viveremos em sua presença” –, são inexoráveis as palavras de exortação do Oráculo (Os 6, 4): “O vosso amor é como a nuvem da manhã; como o orvalho, que cedo desaparece”.

Todavia, como a Misericórdia, no plano soteriológico constatável no conjunto da Mikrah (as Escrituras), é composta pelo equilíbrio entre Hesed (Amor) ve’Emet (e a Verdade) – o realismo da constatação (acerca da inconstância do propósito declarado) logo implica a longanimidade da perseverança (a respeito da correção quanto à conduta efetiva): “(...) é amor que quero, e não sacrifícios; conhecimento de Elohim mais do que holocaustos” (Os 6, 6).

O responsório sálmico, cuido eu, ajuda-nos a refletir a propósito dos termos em que se deveriam efetivar o amor e o conhecimento que promoveriam uma conversão tal, que, refletindo-se na justiça das práticas litúrgicas (sacrifícios e holocaustos), garantiriam uma adequada disposição ao recebimento, enquanto Graça, do restabelecimento de uma relação de Paz e Amizade com Elohim (ou seja, a Salvação).

Meditando sobre capitulo 51 do Sefer Tehilim (o Livro dos Salmos), é possível estabelecer um arco exegético entre o Moral e o Ético. Com efeito, tudo se inicia num diálogo íntimo entre David HaMelech (o rei Davi) e HaBoreh (o Criador). Note-se, no espectro moral, a intimidade entre a criatura, que pede perdão, e o Criador, que pode perdoar: fala-se em segredo [como instância em que se pode participar da Chochmach (Sl 51, 8): a Sabedoria que, inacessível ao homem, só pode ser comunicada por Elohim: é uma Graça, um Dom]; reconhece-se um desnudamento intestino do suplicante (Sl 51, 7), que sabe que HaBoreh o conhece em sua própria constituição psicofísica – logo sabe de suas incapacidades estruturais para fazer prevalecer, por esforço próprio, sua Yetzer HaTov (boa inclinação: o Bem, como virtude da personalidade) sobre sua Yetzer HaRah (má inclinação: o Mal, como debilidade da personalidade).

Estabelecido esse diálogo íntimo entre aquele que tem de pedir perdão e Aquele que pode perdoar-lhe, passa-se do espectro moral ao ético. Alcançado o perdão, que fazer? Ir para casa e refestelar-se com o haver logrado a Graça, tendo, no máximo, o cuidado de não se vangloriar de havê-lo granjeado mediante alguma sorte de mérito?

De modo algum. Ato contínuo à percepção de haver sido agraciado pelo perdão enquanto Dom, David HaMelech professa o voto de dirigir-se ao próximo – exortá-lo vivamente, empenhar-se por sua conversão (o que implica preocupar-se verdadeiramente com seu bem- estar: a plenitude de sua Vida): “Ensinarei vossos caminhos aos rebeldes, para que os pecadores voltem a Vós” (Sl 51, 15).

Ademais de uma preocupação interpessoal, de alcance quiçá apenas comunitário, o salmista ainda se preocupa com o conjunto da sociedade – intercede pela sorte de todo conjunto social e religioso que enfeixa a realidade do mundo referente: “Fazei o bem ao Har Tzion (o Monte Sião), reconstruí as muralhas de Yerushalayim” (Sl 51, 20).

Só assim, conclua-se, a David HaMelech se lhe afigura que a conversão da conduta (do íntimo ao social: do moral ao ético) pode faz valer a expressão litúrgica dos sacrifícios e holocaustos: “Então vos agradareis dos sacrifícios de justiça – holocaustos e ofertas totais – e em vosso altar oferecer-se-vos-ão novilhos” (Sl 51, 21).

Logo, Thiago, meu confrade caríssimo, à luz do responsório sálmico, creio lícito afirmar que aqueles termos em que se deveriam arrimar a conversão dos antigos israelitas, segundo a exortação oracular de Hoshea HaNavi – a saber, o amor e o conhecimento –, se estabelecem na seguinte transitividade nominal: o conhecimento, como explicita o próprio excerto do Oráculo, completa-se semanticamente em Elohim [“(...) conhecimento de Elohim mais do que holocaustos” (Os 6, 6)]; já o amor, cuja completude nominal não é explícita no texto, dirige-se, infiro eu, não só a Elohim, senão também ao próximo [“(...) é amor que quero, e não sacrifícios” (id., ib.)].

Ademais de um esforço moral, frise-se, o qual deve orientar-se pelo Amor a Elohim e pela tentativa de conhecer sua Vontade – é de mister um empenho ético: importar-se com os irmãos, preocupar-se com sua conversão e ajudá-los a superar a opressão que paire sobre sua existência.

Portanto, quando chegamos à Midrash que versa sobre a atitude do par antinômico formado pelo arquétipo do P’rush (Fariseu) e pelo do Publicano, que dizer? Em que medida a oração íntima do primeiro não lhe garante nenhuma justificação, ao que passo que a do segundo lhe granjeia justamente o contrário?

Julgo que, ademais do ponto frisado pela homilia do padre Paulo Ricardo – saibamos que não temos mérito algum em nossa percepção de gozarmos uma relação de Paz e Amizade com Yahweh: a Salvação – sobressai isto: não nos esqueçamos de que não nos basta ir para casa cheios de pudor quanto ao reconhecimento de nossa insuficiência em alcançar a justificação.

Note-se que, no excerto evangélico de hoje, mais do que a interpretação da autossuficiência do P’rush, salta aos olhos a textualidade de seu desprezo à insuficiência do Publicano. Seu pecado, portanto, está, num grau exegético mais seguro, menos na própria presunção de Justiça e mais em seu menoscabo pela carência espiritual do Publicano.

Leia-se: “Ó Elohim, dou-vos graças porque não sou como o resto dos homens: ladrões, injustos, adúlteros, nem como este publicano” (Lc 18, 11). Note-se que, em sua ação de graças a HaBoreh, o P’rush aponta suas práticas de justiça eclesial como uma consequência de sua conduta de aversão aos pecadores (e não só a seus pecados). Ele despreza o publicano, e os sacramentos de sua insolidariedade para com o próximo em seus descaminhos são as observâncias litúrgicas que ele escrupulosamente apresenta a Yahweh.

Por isso sua ação de graças não é aceita: seu pecado ético anula seus escrúpulos morais, e seus sacrifícios e holocaustos não são aceitos como exteriorização da percepção do estabelecimento da Paz e da Amizade com Elohim: a Salvação.

Ao contrário, como se lê na Midrash, o Publicano, em vez de apresentar uma ação de graças, propõe-se fazer uma súplica: no lugar de agradecer pelo que julga haver conquistado, ele se dispõe a pedir o que sabe não poder alcançar à força das próprias faculdades. Esse primeiro passo, moral, é suficiente, no contexto textualmente estabelecido, para que ele volte para casa justificado de suas faltas.

No entanto, Thiago, caríssimo, permite-me uma extrapolação hermenêutica: caso esse Publicano não faça como aquele Zaqueu (Lc 19, 1-10), e não passe do espectro moral ao ético, fazendo medrar frutos de misericórdia que testifiquem estar ele, como um galho outrora seco, de ora avante enxertado na Videira – crês que é lícito bastar a semelhante personagem apenas o escrúpulo de não incorrer no pecado de imputar a eficiência do perdão ao mérito do próprio arrependimento?

Não nos esqueçamos de outra célebre Midrash, a do Semeador (Mt 13, 3b-8): a Justificação, uma vez alcançada, pode ser outra vez perdida; o entusiasmo pode esfriar-se, e outras preocupações podem medrar em seu lugar. Recebidas as sementes de Justiça, é preciso empenho em fazer frutificar obras de Misericórdia.

E semelhantes frutos, como sabemos, somente agradam ao paladar de Yahweh se partilhados com os irmãos, a começar pelos que mais necessitam de semelhante manjar: os que sentem fome, os que padecem sede, e aqueles cujas privações reclamam nossa consolação: os presos, os enfermos, os órfãos e as viúvas (Mt 25, 34-36).

Se tão-somente mostrarmos o escrúpulo sublinhado pelo Padre Paulo Ricardo em sua homilia, corremos o risco de irmos para casa injustificados – e sem sabê-lo, como sugere a Midrash com relação ao P’rush. Daí, no Dia do Juízo, quiçá nos vejamos em apuros, ouvindo de Bar Abba (o Filho de Deus): “Nunca vos conheci” (Mt 7, 23).

Loucura e insensatez, pontua o sacerdote em sua advertência sobre o pecado de nos acharmos, em termos morais, capazes de alcançar a justificação de nossos tropeços e falhas; contudo advirto (a mim mesmo, em primeiro lugar) que em loucura e insensatez maior podemos incorrer se, presumivelmente remidos, não nos apressarmos, em termos éticos, em buscar a remissão de nossos irmãos – o que passa pelo atendimento das necessidades concretas (pelo menos, na medida real de nossa possibilidade) dos ‘Anawin (os Pobres), cujas privações e mazelas podem obstar à boa disposição de sua conduta: “Apartai-vos de mim” (id., ib.), pode ser nossa sentença.

Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo.

Como, amanhã, segundo o calendário dos Antigos, é Rosh Chodesh (a Cabeça do Mês: dia primeiro) de Aviv (ou Nisã), e essa era a data do Ano Novo antes das reformas rabínicas pós- exílicas – que fixaram a Rosh Hashanah, a “Cabeça do Ano”, no equinócio de outono do hemisfério norte (setembro-outubro: mês de Tishrei), e não mais no equinócio setentrional de primavera (março-abril: mês de Aviv), e este ano coincidem a celebração da Pesach segundo ambas as tradições bíblicas – no lugar de despedir-me, hoje, como seria habitual (“Shabbath Shalom”), vou-me despedir fazendo votos de que, a contar de amanhã, nossa Caminhada quaresmal nos prepare para uma redenção também de ordem cronológica: que nosso Tempo, hoje tão temerário e conflitivo, também seja remido no Domingo por excelência: a celebração da vitória da Vida sobre a Morte.

Tov Shanah [Feliz Ano (novo)].

 

Atenciosamente,

Marco Roberto de Souza Albuquerque.

(https://www.youtube.com/watch?v=fEQylLNGcPk)

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