//O Histórico Jornal A Plebe

O Histórico Jornal A Plebe

A Plebe foi um jornal periódico anarquista e anticlerical  publicado no Brasil por Fábio Lopes dos Santos Luz e Edgard Leuenroth, publicado pela primeira vez em 09 de janeiro de 1917 até o ano de 1951, com algumas interrupções. No início, A Plebe era veiculado semanalmente, trazendo assuntos sobre greves e manifestações libertárias que apoiava.

Formado a partir das forças das correntes libertárias que se formavam pelos trabalhadores da época, o jornal A Plebe foi constituído durante um período de fortes manifestações e brigas políticas que aconteciam pelas ruas de São Paulo. Durante o período em que circulou, o jornal anarquista foi interrompido algumas vezes, levando em conta que seus diretores foram presos algumas vezes.

Pode-se afirmar que o jornal A Plebe teve duas fases de divulgação: de 1917 até a interrupção na década de 30, e depois, de 1947 até 1951, quando foi realmente finalizado. Seu segundo período foi considerado mais emblemático do que o primeiro, já que o país passava por uma fase de redemocratização e da reorganização dos movimentos esquerdistas. Durante o período da nova retomada, tanto do país, quanto do jornal, os editores estavam cientes da dificuldade que teriam em divulgar um conteúdo que seguisse o editorial do jornal, de apoio aos movimentos com causas libertárias, anarquista e anticlerical.

O jornal chegou a publicar notícias sobre diversos países, focando principalmente nos componentes da América Latina e da Espanha. A Plebe ficou conhecido por seus diversos conteúdos, fossem eles desenhos, caricaturas ou literatura, que tinham o objetivo de disseminar as causas defendidas e ideologias doutrinárias. Em suas páginas estavam destacados os problemas que os proletários enfrentavam todos os dias, criticando, nem sempre de maneira sutil, o sistema capitalista no qual viviam, a classe média alta e, claro, a Igreja, que na concepção do jornal, instigavam as atitudes da elite.

Como o jornal representa um grupo social que precisou de uma base que, por meio de suas publicações impressas, estimulasse e fortalecesse os trabalhadores na luta por seus interesses, A Plebe, mesmo após seu fim em 1951, carrega uma carga simbólica por grande parte da sociedade. Sem esse periódico e outros que vieram antes, como A Lanterna, o que uma parcela da comunidade pensa jamais seria ouvida e retratada, fortalecendo a exclusão do grupo na sociedade brasileira.

Lançado ainda no período da Primeira Guerra Mundial, em que os salários e a vida dos trabalhadores estavam instáveis, desestabilizados, A Plebe já estava sob o comando de Edgar Leuenroth, Como forma de dar continuação a outro periódico anticlerical da época, o jornal afirmou, logo em seu primeiro material veiculado, ser a extensão de A Lanterna.[3]Por conta disso, o veículo tinha como objetivo ser o órgão destinado à luta dos trabalhadores contra a opressão e a miséria vividas pela classe baixa do Brasil.

Criado em meio à greve de 1917, A Plebe era composta por editores que tiveram um envolvimento com movimentos libertários. Se envolvendo diretamente em uma das manifestações, o editor-proprietário, Edgar Leuenroth, tornou-se um dos líderes do movimento de 17, tanto presencialmente, oferecendo apoio nas ruas, quanto nas páginas do jornal A Plebe. Por se envolver tão fortemente nesta greve, Leuenroth foi preso, acusado por liderar o saque que aconteceu no Moinho Santista. Com esse acontecimento, a polícia entrou na redação e o jornal teve suas portas fechadas. Para não manter o jornal sem publicações, Florentino de Carvalho, um dos anarquistas que colaborava para A Plebe, manteve as o fluxo período de veiculação, porém, claro, se escondendo por pseudônimos e críticas sutis ao Estado.

Após quase quatro anos, em 1921, o proprietário reabriu a redação, o fluxo de publicações voltou ao normal, porém em julho 1924, quando foi decretado estado de sítio no Estado, A Plebe deixou, novamente, de ser veiculado. Pouco antes do jornal deixar de circular, toda a responsabilidade estava sob Pedro A. Mota, militante que assumiu o cargo de 1923 a 1924. Quando o tumulto abaixou, em 1927, o jornal voltou a circular normalmente, trazendo agora em seu conteúdo denúncias sobre o exílio de ativistas e trabalhadores que estavam participando de toda a movimentação ocorrida em 24.

Com a aplicação da Lei Celerada, que instaurou a repressão nos jornais operários e dentro dos próprios sindicatos, A Plebe também foi afetada, gerando interrupções em sua veiculação em 1932. Independente dessa instabilidade, durante os anos 30, o veículo ficou focado na divulgação de conteúdos antifascistas, citando nomes de governos, movimentos, Igrejas e repassando também reuniões realizadas pelo Centro de Cultura Social (CCS). Para provar as denúncias que aconteciam na época, em 1934, por exemplo, A Plebe teve um exemplar que acusava diretamente o Governo do Getúlio Vargas, junto a Igreja Católica, de serem e aplicarem conceitos nazi-fascistas.

Com a aproximação de duas grandes forças conservadoras – movimento integralista e Igreja Católica – diversos militantes que se consideravam anarquistas começaram a aderir à Aliança Nacional Libertadora (ANL), independente das ações políticas que ela recomendava e seguia não fossem 100% aceitas por seus membros. Mais uma vez, por conta da repressão do governo à Aliança, o jornal foi fechado em 1935, porém seria relançada doze anos depois.

Exatamente quando o mês maio de 1947 começou, o jornal A Plebe foi reaberto por Edgar Leuenroth. Já presente em um contexto político diferente, a tentativa do veículo continuava a mesma: reviver os movimentos libertários e a militância de cada sindicato. Para isso, o editor-proprietário precisou da ajuda de alguns colaboradores, como Liberto Lemos Reis e Lucca Gabriel, jovens que já estavam envolvidos na militância e articulados ao CCS. Neste último período em que se manteve vivo, o jornal passou a ser dirigido e editado por Rodolpho Felippe, e ficou desta maneira até 1951, ano em que parou de ser totalmente veiculado.

O Jornal A Plebe sempre foi, desde sua criação, voltado para a produção de conteúdos que abordassem e apoiassem os movimentos libertários proletários, dando voz as reclamações do povo que eram considerados invisíveis ou menos importantes para o Governo. Durante todo o seu tempo de veiculação, A Plebe passou por diversas mudanças, censuras e cortes geradas por medidas governamentais. Como forma de criticar todas as relações criadas pelo governo com o clero, o jornal anarquista e anticlerical divulgava conteúdos em diversas linguagens, como caricaturas, imagens, poesias, textos literários e, claro, um material de denúncia e apurado, sendo considerado um conteúdo mais jornalístico. Todos os conteúdos divulgados tinham como objetivo difundir a causa operária e libertária da sociedade na época.

Mesmo com as mudanças sofridas durante seu tempo de veiculação, a Plebe manteve uma coluna que abordava as organizações e as a ções dos sindicatos em São Paulo. Em seu formato também existiam sessões dedicadas para recomendar materiais que visavam a ideologia libertária, além de trazer, em um formato parecido com a parte de livros, artigos que ajudavam o leitor a se situar sobre assuntos como anarquismo, comunismo, bolchevismo e outras vias do movimento da esquerda.

Liberdade Feminina e Sexualidade

Uma das abordagens que as publicações do jornal A Plebe trazia era a sexualidade e a liberdade. Por ser um periódico que defendia causas libertárias da classe operária, o jornal se tornou um dos veículos de maior importância da época e, em 1935, um dos anos mais calmos da história do jornal, diversos temas passaram a ser abordados, inclusive sobre a luta feminista e o envolvimento do gênero em todas as manifestações revolucionárias do período.

A presença da figura feminina está presente em diversos âmbitos dos conteúdos, como na existência de colaboradoras para o jornal que, já nesta época, assinavam seus conteúdos, discutiam e debatiam suas ideologias e traziam à tona questionamentos sobre a sociedade.

Uma das principais colaboradoras do veículo, que ganhou destaque pelo material “Um apelo que deve ser ouvido”, foi Isa Ruti. No texto divulgado, a militante pedia ajuda financeira para o jornal, que passava por um momento delicado em que não conseguia manter sua circulação periodicamente. O espaço que Isa tinha no jornal era gratificante, tendo em vista que era uma mulher em uma época totalmente, porém não exclui o contraste em que vivia dentro das redações. Em um trecho de seu texto, Isa cita: “O meu coração sensível de mulher contém, armazenado muito amor pelo ser humano. Desse amor vou dispor para dar o que eu poderia dar, se fosse homem e fumasse, em benefício da ‘Plebe'”

Mesmo que o movimento feminista anarquista estivesse presente nas páginas da Plebe, muitos dos posicionamentos não mantinham uma mesma linha de coesão. Isso porque as colaboradoras tinham vivências diferentes, idades divergentes e modos de expressão diferentes uma das outras. Enquanto umas apresentavam apelos, como Isa, outras apostavam em textos com mais alfinetadas, mostrando raiva e angústia pelo momento em que viviam. Por este motivo é complicado padronizar o movimento feminista que ocorria dentro do jornal. Algumas dessas mulheres, além da Isa Ruti, eram Maria Lacerda de Moura, Alba Moscalega e Juliette Witheatname.

Com essas mulheres, um dos temas mais discutidos era a sexualidade da mulher, o poder sobre seus corpos e todo o início de uma exploração corporal que viria se desenvolver durante as décadas posteriores. Os discursos eram compostos por textos literários, relatos experimentais e conteúdos com o objetivo de oferecer uma análise além da moralidade, que tratassem de assuntos conturbados como algo a ser esclarecido e discutido. Pelas páginas, os leitores encontravam propostas para debates sobre maternidade, anticoncepcional, aborto, educação sexual, prostituição, entre outros.

A maior questão que paira sobre esses temas não é apenas o fato de serem escritos tanto por anarquistas homens, quanto por mulheres, porém a diferença entre o discurso de cada gênero . Quando a perspectiva vinha do escritor homem, por exemplo, ela não questionava o posicionamento masculino diante certas situações (como a prostituição, se estava sendo discutida em um novo contexto, as atitudes do cliente deveriam ser adaptadas e debatidas também), apenas da presença da mulher nestes temas. Em 1935, por exemplo, o anarquista Marques da Costa, publicou uma experiência vivida por alguns amigos na França. No material divulgado , Costa contava que os envolvidos haviam sido presos acusados por dois crimes previstos no Código Penal Francês: provocação de aborto e mutilação de órgãos genitais. Enquanto conta, além de denunciar a polícia pelos seus atos, o anarquista parabeniza o grupo de amigos por serem um exemplo à cultura que o jornal apoia. 

Educação

No jornal A Plebe eram veiculados conteúdos que tratavam sobre a educação de mulheres e crianças da classe média baixa. Então, desde seu primeiro volume, o periódico já apresentou críticas ao governo e a falta de educação para essa classe social.

A educação libertária, foco do jornal, teve início com a vinda dos imigrantes para servirem de mão de obra nas lavouras de café, onde, mesmo reunindo diversas culturas, pensamentos e valores, a linha do pensamento anarquista se destacou. Como a taxa de analfabetismo era alta na classe trabalhadora, os libertários viram jornais como forma de repassar seus pensamentos e ideais para os operários.

A Plebe, então, foi um dos veículos que manteve a linha de pensamento que os libertários quiseram implementar para cessar o analfabetismo, tanto literal, quanto o conceitual, e conquistar mais seguidores nesta ideologia. Como o objetivo do periódico era trazer a verdade para os leitores, apresentando da maneira mais nua todo o sistema político sofrido por eles, A Plebe denunciava toda a Rede de Ensino que era patrocinada pelo Estado. 

Os anarquistas queriam que o povo enxergasse a verdade que se passava no seu dia a dia e não encarassem toda a rotina como um sistema abusivo normal. Em algumas publicações do periódico, os jornalistas relatavam toda a estrutura dominante e exploradora criada pelo Governo, contando seus objetivos de doutrinar as crianças para que estas ocupem seus lugares “já predeterminados”]. A Plebe tinha a vontade de batalhar pelo ensino daqueles que, se dependessem do sistema estatal, jamais teriam acesso ao conhecimento, impossibilitando uma futura revolta coletiva.