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Vida e luta em solo moçambicano

Era uma manhã como outra qual­quer. Como de costume, o pesquisador Colin Darch chegara cedo ao Centro de Estudos Africanos (CEA),
Vida e luta em solo moçambicano
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Vida e luta em solo moçambicano

Era uma manhã como outra qual­quer. Como de costume, o pesquisador Colin Darch chegara cedo ao Centro de Estudos Africanos (CEA), no cam­po universitário em Maputo, Moçam­bique. Não havia quase ninguém por ali, naquele horário em que ele jamais imaginaria ter a porta de sua sala aber­ta para receber uma notícia que, a essa altura, ganhava projeção internacional. O relato nos remete ao dia 20 de ou­tubro de 1986. 11 anos após a indepen­dência do país.

– “Já ouviste?”, questionou o pes­quisador sul-africano Rob Davies. “O avião de Samora desapareceu. Não vol­tou da Zâmbia na noite passada.”

33 mortos e uma queda com causas ainda por apurar. Foi assim que Darch, atualmente investigador associado da Universidade de Cape Town, ouviu pe­la primeira vez os detalhes do desastre que matou Samora Machel, então pre­sidente de Moçambique, além de outra figura conhecida: Tomás Aquino Mes­sias de Bragança – seu chefe e colega no CEA.

A bordo do Tupolev 134, soviético, Aquino integrava a equipe presidencial que retornava de uma missão de paz na Zâmbia. Eram tempos de África Aus­tral, o que significa dizer que o avião despencara em Mbuzini, território sul­-africano, num contexto marcado pe­lo poder econômico e militar da Repú­blica da África do Sul, onde um gover­no de minoria branca havia instituído o sistema do apartheid.

Peça-chave

Explicar as razões deste episódio não é fácil. Mas os que se recordam de co­mo o incidente ecoou em suas mentes ajudam a tecer as teias (por vezes invi­síveis) da trajetória dos movimentos de libertação das então colônias portugue­sas na África. E, em particular, da lu­ta levada a cabo pelos moçambicanos. Uma jornada na qual Aquino de Bra­gança foi peça-chave.

“Em termos de descolonização, o que se passa em Moçambique é inteiramen­te novo. Não está nos livros. Não vão buscar os livros. Não vão buscar recei­tas. Isto é novo”, diria Aquino ao reafir­mar o que seria a sua posição até o fim da vida – a de construir o autoconheci­mento da sociedade, um conhecimento que lhe seja capaz de elucidar quem é e para onde vai, por quais meios e com que recursos.

Uma opção por mudar o mundo e não apenas compreendê-lo, como avalia Boaventura de Sousa Santos em Aqui­no de Bragança: criador de futuros, mestre de heterodoxias, pioneiro das epistemologias do Sul.

O saber e a colônia

Pesquisador, professor, jornalista, in­telectual público, militante político, di­plomata discreto. Foram tantos os ofí­cios de Aquino de Bragança que é difí­cil defini-lo apenas por suas ocupações, embora todas sejam essenciais à com­preensão de sua personagem híbrida.

Nascido em 6 de abril de 1924, em Goa, quando essa ainda era uma colô­nia portuguesa na Índia, sua juventude foi influenciada pela ligação de sua fa­mília com o jornalismo.

Mas foi ao se fixar na França, onde graduou-se físico, que Aquino iria esta­belecer ligações profundas com os na­cionalistas e os movimentos de liberta­ção das então colônias portuguesas, da qual Moçambique fazia parte – e seria, não por acaso, eleita como morada des­te histórico lutador.

Nas lembranças de Isabel Casimiro, ex-aluna de Aquino e, atualmente, pes­quisadora do CEA, “foi uma espécie de ministro sem pasta enviado por Samo­ra Machel para desempenhar as mais diversas e difíceis missões, para abrir caminhos num momento de Guerra Fria, de agressividade do apartheid na África do Sul e na Rodésia e de guerra de desestabilização em Moçambique” – uma imagem partilhada por Boaventu­ra, que atribui ao pensador africano a vocação de limar arestas.

No começo dos anos de 1960, Aquino estava convencido: integraria o núcleo inicial que criou a Conferência das Or­ganizações Nacionalistas das Colônias Portuguesas (CONCP), em abril de 1961.

Juntou-se a nomes como Agostinho Neto, Eduardo Mondlane, Samora Ma­chel, Marcelino dos Santos, Amílcar Cabral, formando uma geração que es­teve vinculada organicamente ao pro­cesso de independência de Angola, Mo­çambique, Guiné Bissau e Cabo Verde.

Teoria e prática

Em 1975, após a independência de Moçambique, funda e assume a direção do Centro de Estudos Africanos da Uni­versidade Eduardo Mondlane (CEA/UEM). Ali, estreitaria os laços entre a teoria e a prática na tarefa por dispen­sar o saber coloniale construir um co­nhecimento que servisse aos interesses de uma sociedade livre.

“Estava tudo por se fazer”, pontua Casimiro. E isto, esta constatação, se projetava no cenário das investidas do CEA em produzir uma capacidade na­cional para que fosse possível estudar, pensar, refletir, desafiar.

Entender um país. Transformar um país. Escolhas de convivência difícil. Mas o CEA queria mais e, assim, foi criada a Oficina de História no início dos anos de 1980. E lá foi Aquino, esti­mular o estudo sobre o poder popular, a produção e as cooperativas nas antigas zonas libertadas.

Percurso do qual resulta, como um dos exemplos, a tese pioneira de Casi­miro sobre a participação da mulher na luta armada – concluída num momento de embate entre a visibilidade mundial dos movimentos feministas e a resistên­cia da Frente de Libertação de Moçam­bique (Frelimo) ao tema por considerá­-lo secundário ao processo revolucioná­rio – uma visão contrária às expectati­vas de Aquino para quem este tipo de pesquisa era crucial para o entendimen­to das raízes da opressão da mulher, das relações de poder e das características da luta, como recorda Casimiro.

Autonomia cultural

Estudar com profundidade desde os aspectos que possam parecer mais insig­nificantes até os mais evidentes. Naque­le ano de 1980, a vazão a esse pensamen­to encontrava espaço nas páginas da re­cém-lançada revista Estudos Moçambi­canos, dirigida pela socióloga sul-africa­na, Ruth First – à época, diretora de in­vestigação do CEA a convite de Aquino.

Jornalista ativa na defesa dos direi­tos humanos, First levava a vida no exí­lio desde 1964, quando se viu obrigada a deixar a África do Sul após denunciar os horrores do trabalho escravo pratica­do em seu país.

Em Moçambique, esteve à frente do Curso de Desenvolvimento, organizan­do métodos de trabalho coletivo e de campo comprometidos com a transfor­mação social. Mas até mesmo quando se dedicava mais às atividades acadê­micas do que às de militante, ela con­tinuava a ser uma ameaça ao governo do apartheid.

Já se chega a 1982. Uma carta-bomba lhe tira a vida, dentro do próprio CEA, e o clima seco do inverno se estende por todo o mês de agosto.

Para Darch, tanto Aquino como First exerceram forte influência um sobre o outro. Compartilharam um sentido de urgência política que tornava necessá­rio romper com os moldes acadêmicos para se buscar as múltiplas Moçambi­ques existentes.

Um movimento que levou Aquino a partilhar, ao lado de Amílcar Cabral com quem também teve uma convivên­cia próxima, a preocupação em não con­verter a concepção marxista de suas op­ções teóricas em uma doutrina rígida e reducionista, como destaca Boaventura.

Novidade

Em outras palavras: o que estava em jogo era valorizar a especificidade e novidade do processo moçambicano em curso. Submeter a tradição teórica a um exame crítico que considerasse, entre outras questões, o valor autôno­mo da cultura, como reivindicado por Cabral em texto enviado à reunião da Unesco, em julho de 1972: “A atitude e o comportamento de cada categoria ou de cada indivíduo diante da luta e ao seu desenvolvimento são, certamen­te, ditados pelos seus interesses eco­nômicos, mas também profundamen­te influenciados pela sua cultura. Po­de-se mesmo afirmar que é a diferen­ça dos níveis de cultura que explica os diferentes comportamentos dos indiví­duos da mesma categoria social relati­vamente ao movimento de libertação”.

Mas o que tais palavras significam na ordem das coisas? Que peso elas têm na empreitada de Aquino de Bragança em sua trajetória no CEA?

Àquela altura, as análises sociais cor­riam o risco de acomodarem-se na vi­são economicista e a ideia de negros africanos culturalmente idênticos era uma realidade presente, nascida fora da África. Talvez, por isso, na memória de Casimiro resida a lembrança do ca­derninho em que Aquino anotava, mui­tas vezes, aquilo que ouvia. A prática da escuta permanente que marcaria dife­rentes gerações de estudantes que ele ajudara a formar.

Se estivesse vivo, Aquino estaria hoje com 90 anos.

 

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Era uma manhã como outra qual­quer. Como de costume, o pesquisador Colin Darch chegara cedo ao Centro de Estudos Africanos (CEA), no cam­po universitário em Maputo, Moçam­bique. Não havia quase ninguém por ali, naquele horário em que ele jamais imaginaria ter a porta de sua sala aber­ta para receber uma notícia que, a essa altura, ganhava projeção internacional. O relato nos remete ao dia 20 de ou­tubro de 1986. 11 anos após a indepen­dência do país.

– “Já ouviste?”, questionou o pes­quisador sul-africano Rob Davies. “O avião de Samora desapareceu. Não vol­tou da Zâmbia na noite passada.”

33 mortos e uma queda com causas ainda por apurar. Foi assim que Darch, atualmente investigador associado da Universidade de Cape Town, ouviu pe­la primeira vez os detalhes do desastre que matou Samora Machel, então pre­sidente de Moçambique, além de outra figura conhecida: Tomás Aquino Mes­sias de Bragança – seu chefe e colega no CEA.

A bordo do Tupolev 134, soviético, Aquino integrava a equipe presidencial que retornava de uma missão de paz na Zâmbia. Eram tempos de África Aus­tral, o que significa dizer que o avião despencara em Mbuzini, território sul­-africano, num contexto marcado pe­lo poder econômico e militar da Repú­blica da África do Sul, onde um gover­no de minoria branca havia instituído o sistema do apartheid.

Peça-chave

Explicar as razões deste episódio não é fácil. Mas os que se recordam de co­mo o incidente ecoou em suas mentes ajudam a tecer as teias (por vezes invi­síveis) da trajetória dos movimentos de libertação das então colônias portugue­sas na África. E, em particular, da lu­ta levada a cabo pelos moçambicanos. Uma jornada na qual Aquino de Bra­gança foi peça-chave.

“Em termos de descolonização, o que se passa em Moçambique é inteiramen­te novo. Não está nos livros. Não vão buscar os livros. Não vão buscar recei­tas. Isto é novo”, diria Aquino ao reafir­mar o que seria a sua posição até o fim da vida – a de construir o autoconheci­mento da sociedade, um conhecimento que lhe seja capaz de elucidar quem é e para onde vai, por quais meios e com que recursos.

Uma opção por mudar o mundo e não apenas compreendê-lo, como avalia Boaventura de Sousa Santos em Aqui­no de Bragança: criador de futuros, mestre de heterodoxias, pioneiro das epistemologias do Sul.

O saber e a colônia

Pesquisador, professor, jornalista, in­telectual público, militante político, di­plomata discreto. Foram tantos os ofí­cios de Aquino de Bragança que é difí­cil defini-lo apenas por suas ocupações, embora todas sejam essenciais à com­preensão de sua personagem híbrida.

Nascido em 6 de abril de 1924, em Goa, quando essa ainda era uma colô­nia portuguesa na Índia, sua juventude foi influenciada pela ligação de sua fa­mília com o jornalismo.

Mas foi ao se fixar na França, onde graduou-se físico, que Aquino iria esta­belecer ligações profundas com os na­cionalistas e os movimentos de liberta­ção das então colônias portuguesas, da qual Moçambique fazia parte – e seria, não por acaso, eleita como morada des­te histórico lutador.

Nas lembranças de Isabel Casimiro, ex-aluna de Aquino e, atualmente, pes­quisadora do CEA, “foi uma espécie de ministro sem pasta enviado por Samo­ra Machel para desempenhar as mais diversas e difíceis missões, para abrir caminhos num momento de Guerra Fria, de agressividade do apartheid na África do Sul e na Rodésia e de guerra de desestabilização em Moçambique” – uma imagem partilhada por Boaventu­ra, que atribui ao pensador africano a vocação de limar arestas.

No começo dos anos de 1960, Aquino estava convencido: integraria o núcleo inicial que criou a Conferência das Or­ganizações Nacionalistas das Colônias Portuguesas (CONCP), em abril de 1961.

Juntou-se a nomes como Agostinho Neto, Eduardo Mondlane, Samora Ma­chel, Marcelino dos Santos, Amílcar Cabral, formando uma geração que es­teve vinculada organicamente ao pro­cesso de independência de Angola, Mo­çambique, Guiné Bissau e Cabo Verde.

Teoria e prática

Em 1975, após a independência de Moçambique, funda e assume a direção do Centro de Estudos Africanos da Uni­versidade Eduardo Mondlane (CEA/UEM). Ali, estreitaria os laços entre a teoria e a prática na tarefa por dispen­sar o saber coloniale construir um co­nhecimento que servisse aos interesses de uma sociedade livre.

“Estava tudo por se fazer”, pontua Casimiro. E isto, esta constatação, se projetava no cenário das investidas do CEA em produzir uma capacidade na­cional para que fosse possível estudar, pensar, refletir, desafiar.

Entender um país. Transformar um país. Escolhas de convivência difícil. Mas o CEA queria mais e, assim, foi criada a Oficina de História no início dos anos de 1980. E lá foi Aquino, esti­mular o estudo sobre o poder popular, a produção e as cooperativas nas antigas zonas libertadas.

Percurso do qual resulta, como um dos exemplos, a tese pioneira de Casi­miro sobre a participação da mulher na luta armada – concluída num momento de embate entre a visibilidade mundial dos movimentos feministas e a resistên­cia da Frente de Libertação de Moçam­bique (Frelimo) ao tema por considerá­-lo secundário ao processo revolucioná­rio – uma visão contrária às expectati­vas de Aquino para quem este tipo de pesquisa era crucial para o entendimen­to das raízes da opressão da mulher, das relações de poder e das características da luta, como recorda Casimiro.

Autonomia cultural

Estudar com profundidade desde os aspectos que possam parecer mais insig­nificantes até os mais evidentes. Naque­le ano de 1980, a vazão a esse pensamen­to encontrava espaço nas páginas da re­cém-lançada revista Estudos Moçambi­canos, dirigida pela socióloga sul-africa­na, Ruth First – à época, diretora de in­vestigação do CEA a convite de Aquino.

Jornalista ativa na defesa dos direi­tos humanos, First levava a vida no exí­lio desde 1964, quando se viu obrigada a deixar a África do Sul após denunciar os horrores do trabalho escravo pratica­do em seu país.

Em Moçambique, esteve à frente do Curso de Desenvolvimento, organizan­do métodos de trabalho coletivo e de campo comprometidos com a transfor­mação social. Mas até mesmo quando se dedicava mais às atividades acadê­micas do que às de militante, ela con­tinuava a ser uma ameaça ao governo do apartheid.

Já se chega a 1982. Uma carta-bomba lhe tira a vida, dentro do próprio CEA, e o clima seco do inverno se estende por todo o mês de agosto.

Para Darch, tanto Aquino como First exerceram forte influência um sobre o outro. Compartilharam um sentido de urgência política que tornava necessá­rio romper com os moldes acadêmicos para se buscar as múltiplas Moçambi­ques existentes.

Um movimento que levou Aquino a partilhar, ao lado de Amílcar Cabral com quem também teve uma convivên­cia próxima, a preocupação em não con­verter a concepção marxista de suas op­ções teóricas em uma doutrina rígida e reducionista, como destaca Boaventura.

Novidade

Em outras palavras: o que estava em jogo era valorizar a especificidade e novidade do processo moçambicano em curso. Submeter a tradição teórica a um exame crítico que considerasse, entre outras questões, o valor autôno­mo da cultura, como reivindicado por Cabral em texto enviado à reunião da Unesco, em julho de 1972: “A atitude e o comportamento de cada categoria ou de cada indivíduo diante da luta e ao seu desenvolvimento são, certamen­te, ditados pelos seus interesses eco­nômicos, mas também profundamen­te influenciados pela sua cultura. Po­de-se mesmo afirmar que é a diferen­ça dos níveis de cultura que explica os diferentes comportamentos dos indiví­duos da mesma categoria social relati­vamente ao movimento de libertação”.

Mas o que tais palavras significam na ordem das coisas? Que peso elas têm na empreitada de Aquino de Bragança em sua trajetória no CEA?

Àquela altura, as análises sociais cor­riam o risco de acomodarem-se na vi­são economicista e a ideia de negros africanos culturalmente idênticos era uma realidade presente, nascida fora da África. Talvez, por isso, na memória de Casimiro resida a lembrança do ca­derninho em que Aquino anotava, mui­tas vezes, aquilo que ouvia. A prática da escuta permanente que marcaria dife­rentes gerações de estudantes que ele ajudara a formar.

Se estivesse vivo, Aquino estaria hoje com 90 anos.

 

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