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Uma história oral do anarcopunk em São Paulo – parte 1

Conheça as origens do movimento que vinculou o punk à ação política no começo dos anos 90.
Uma história oral do anarcopunk em São Paulo – parte 1
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Uma história oral do anarcopunk em São Paulo – parte 1

Por Eduardo Ribeiro

Conheça as origens do movimento que vinculou o punk à ação política no começo dos anos 90.

o princípio era pra chocar, e a provocação era a máxima do punk, e o que importava era desobedecer e destruir. Ou melhor: se autodestruir. Na segunda metade dos anos 1970, começo dos 80, só o punk enquanto identidade foi capaz de incorporar — estética e comportamentalmente — a angústia de uma juventude completamente esquecida. Quando passou a cuspir na cara do sistema sua generalizada descrença na espécie humana, revertendo lixo, pobreza e falta de rumo em força criativa, o punk abriu um inédito vinco na cultura de massa para a canalização do tédio, do descontentamento que vinha dos subúrbios ingleses e norte-americanos. Com o tempo, a ideia contagiou grande número de roqueiros marginalizados pelos quatro cantos do planeta. Ao passo em que transpôs a crueza das primeiras críticas, o estigma auto-depreciativo do movimento ganhou um aspecto mais politizado e ativista no mundo inteiro.

Mas ocorre que, se no movimento inglês a mídia enciclopédica atribui toda uma complexa história a somente Sex Pistols, Clash & Cia, no Brasil, o recorte geralmente imposto ao tema faz parecer que só existiu a cena impulsionada pelas coletâneas Ataque SonoroO Começo do Fim do MundoGrito Suburbano e SUB. Tudo, de fato, começou ali. Não dá para falar do punk BR sem falar de Restos de Nada, Ratos de Porão, Olho Seco, Cólera, Garotos Podres, Inocentes, etc. Mas não foi ali que a história acabou. Aquele foi só o momento em que se acendeu a fagulha. O primeiro capítulo. Fora que o punk vai um bocado longe da música. É preciso avançar na percepção.

Tem muita coisa interessante perdida abaixo da superfície, raramente abordada, a não ser pelos próprios zines e veículos punks/libertários. Uma delas é a formação da vertente anarcopunk, que colaborou para definir toda a ética e modo de agir do anarquismo contemporâneo. Fui atrás de fatos que só se descobrem na conversa de punk pra punk e detectei que em 87, por exemplo, um conjunto de João Pessoa (PB), o Disunidos, já se assumia “anarco-punk”. Muito louco, porque a sigla MAP (Movimento Anarco-Punk) só surgiria no começo dos anos 90, quando jovens interessados em fazer algo além do barulho, dos rolês em banca, das tretas entre gangues, da chapação, do pogo e do visual, criaram de fato as primeiras células assumidamente anarquistas.

Isso inspirou a busca pelo resgate das histórias fundadoras do anarcopunk em São Paulo, onde ganhou força antes de se espalhar pelo Brasil. As falas reunidas nesta série assinalam o contexto em que tal geração buscou uma reciclagem do anarquismo clássico e da anti-arte para os novos tempos. Algumas das iniciativas pioneiras nesse sentido foram o ACR (Anarquistas Contra o Racismo), Coletivo Altruísta, Coletivo Anarco-Feminista e o KRAP (Koletivo de Resistência Anarco-Punk).

Junto com os coletivos, vieram as primeiras publicações assumidamente representantes da postura anarcopunk, a exemplo do informativo O Iconoclasta, e também se constituíram as bandas Pós-Guerra, Ira dos Corvos, Castitate Sociale, Vala Negra, Execradores, Metropolixo e muitas outras. Em termos de militância, os anarcopunks estiveram entre os primeiros a colocar em pauta uma porção de questões no meio hardcore, como direitos dos animais — vegetarianismo/veganismo, inclusive —, feminismo, ecologia, permacultura, e até ajudaram na estreia do Dia do Orgulho Gay — hoje Parada do Orgulho LGBT — de São Paulo, em 97.

Passados cerca de dois anos de encontros, pesquisas, coletas e transcrições de conversas e edições, apresento finalmente um apanhado daquilo que penso que todos interessados no punk nacional enquanto movimento político, e não só um elemento da cultura pop, deveriam conhecer, com depoimentos focados no período entre 1988-2001. Um pequeno esforço para que tudo o que essa galera fez em nome de seus ideais, mesmo diante de certa ingenuidade e atropelo, não caia no esquecimento. Mas, acima de tudo, inspire novas formas de resistência ao conservadorismo.

A primeira parte, de quatro textos, se volta ao contato inicial que as fontes tiveram com o punk e o anarcopunk. Na semana que vem, abordaremos como o lance todo se desenvolveu.

Punkniks: O começo

Fontes: Antônio Carlos (Centro de Cultura Social), Diego Divino Duenhas (Movimento Anarco-Punk), Ivan Ribeiro (Anarquistas Contra o Racismo), Johnny Revolta (CCS Vila Dalva), Josimas Ramos (Execradores), Katy Fon (MAP), Keli de Fátima (KRAP – Koletivo de Resistência Anarco-Punk, zine Libertação Feminina), Marcolino Jeremias (ULBS – União Libertária da Baixada Santista), Maria Helena (Coletivo Anarco-Feminista, banda Ira dos Corvos, MAP), Marina Knup (Imprensa Marginal), Nenê Altro (Juventude Libertária), Paulo Poeta (Amor, Protesto y Ódio), Ruivo Lopes (ULBS), Sergio Valdez “Loquinho” (Coletivo Altruísta), Silvio Shina (Coletivo Altruísta, zine Punto de Vista Positivo).

CARLINHOS E IVAN EM 92 NA PRAÇA DA SÉ. FOTO POR: KELI DE FÁTIMA TEIXEIRA (JOSIMAS/ARQUIVO PESSOAL)

Ivan Ribeiro: Por volta de 1981-82, um amigo (Cícero) e eu começamos a ler sobre anarquismo e sobre geração beat, dadaísmo, surrealismo, poesia. Na escola e no bairro, eu era um desencaixado. Saía nos rolês com meu amigo, para longas caminhadas em direção ao Centro de São Paulo. Nos considerávamos dois perdidos numa noite suja, ou, verdadeiros beatniks naqueles anos 80. Em 85, do lado de casa teve o festival punk do Radar Tantã. Na parte da tarde, eu estava na rua sentado com os colegas e passaram alguns punks indo montar a aparelhagem. E alguns tinham o case da guitarra com alças de mochila, colocados nas costas. Aquilo me impactou. A estética, o visual, a transgressão. Tinha descoberto naquele momento o que era punk. Fui no festival, que eram dois finais de semana. No primeiro, tudo de boa. No segundo, treta e festival abortado. Mas pra mim a coisa já tinha acontecido.

Continuei nos rolês solitários com meu amigo, e nas leituras anarquistas, dadaístas, surrealistas, beatniks. Em 86, por meio dos lambe-lambes que o Coletivo Libertário fazia no Centro de São Paulo, tivemos conhecimento de que o CCS (Centro de Cultura Social) daria um curso sobre anarquismo na Vila Buarque (Escola de Sociologia e Política da USP). Fomos, e lá conhecemos o recém-inaugurado CCS e toda a turma de anarquistas das antigas. Os que fizeram a ponte do anarquismo do começo do século até aqueles dias. Jaime Cubero, Martinez, Morelli e Zeca Orsi Morel (esses dois, integrantes mais recentes). Eu e meu amigo Cícero tivemos contato com toda a cena anarquista naquele momento. E começamos a frequentar o CCS, na rua Rubino de Oliveira, número 85. Eram palestras, debates e seminários sobre anarquismo, ecologia, antimilitarismo, anticlericalismo.

O lugar já era frequentado por outros punks. Não éramos muito entendidos pelos velhinhos do CCS, que desconfiavam de nossa estética, nosso visual e nossa radicalidade. Tivemos aprendizados e problemas. Criamos o coletivo NAAR (Núcleo Anarquista Ação Radical), e um zine: Desobedecendo. Começamos, a partir da COB (Confederação Operária Brasileira), uma organização anarco-sindicalista, inicialmente dentro do CCS, e depois, após um racha, passamos a atuar fora do CCS. Na COB, começamos a ter problemas com a falta de compreensão da parte dos anarco-sindicalistas sobre nossa cultura. Dentro da COB, fomos a vários estados montar as Juventudes Libertárias e muitas vezes encontrávamos punks nos rolês e já conversávamos sobre punk e anarquismo, porém nada sistemático, que envolvesse o anarcopunk.

Antônio Carlos: A partir de 85, com o surgimento do CCS, os anarquistas passam a ter um lugar para se reunir. E lá nós fomos bem recebidos, mas não entendidos. Porque quem tava lá tinha mais de 60 anos. Eu tinha 20 quando cheguei. O CCS estava sendo fundado, em suas primeiras atividades, e fui porque o Gurgel, que depois virou careca, tinha um fanzine, e eu fazia zine. Nós trocávamos informações. Eu já tinha uma preocupação com movimento estudantil, essas coisas, queria voltar a estudar. Eu era metalúrgico sindicalizado, e conversando com ele descobri que ia surgir o CCS. No CCS houve esse estranhamento. Os punks se aproximaram e ficaram até 87, quando houve um grande rompimento. Essa galera, a juventude que criaria depois o anarcopunk, acompanha a COB, que rompe com o CCS. De 88 até 91, o CCS tem uma relação com os punks, mas distante.

Os punks aparecem individualmente, ou em grupo, mas não tem o contato no sentido de querer ficar porque a referência deles era a COB. Aí você tem essa coisa geracional. No CCS o mais novo era o Zeca, que devia ter uns 40 e poucos anos. Os outros caras tinham de 70 pra cima. Enfim, o pessoal foi pra COB e criou-se uma animosidade. O Centro de Cultura Social é um espaço que sempre lutou para preservar a memória e difundir a ideia anarquista. Então como as principais atividades do CCS eram as palestras, o pessoal começou a ficar inquieto, e achou que a COB tinha mais a ver.

ANTÔNIO CARLOS, DO CCS. PUNK DAS ANTIGAS, ORGANIZADOR DO ARQUIVO PUNK, FOTO: FELIPE LAROZZA/VICE

Nenê Altro: Sempre fui muito bem tratado no CCS, o Jaime passava horas me explicando as coisas. Tinha professores ali, que sentavam ao meu lado e ensinavam coisas, de publicação, disso, daquilo, como chegar nas pessoas. Mas a verdade é que o punk chocava muito. Não é que nem hoje, que tem o Green Day. Que já passamos pela MTV, Good Charlotte, sabe? O punk chocava demais. Eles não entendiam a anti-arte do punk. Ao mesmo tempo em que publicavam Surrealismo e Anarquismo, não compreendiam o punk. Porque era algo palpável, não era o André Breton, distante. Era o cara que estava lá sentado na frente dele. Um choque cultural normal. Não é porque o cara era anarquista que ele era obrigado a ser alguém super cabeça aberta com tudo.

Eu conheci muitos anarquistas que eram cabeça fechada. É normal, cara, cada um tem a sua limitação, o seu crescimento. O Jaime Cubero, pelo que fiquei sabendo, chegava no Isaac, um cara que foi da Juventude Libertária, e dizia: “Esses caras aqui estão falando de anarquismo, vai lá falar com eles.” E o Isaac ia lá convidar o pessoal pra ir no CCS. Ele tinha essa visão, porém outros, não.

Maria Helena: Daí surgiu a Juventude Libertária, que no começo era pra ser uma ala dos jovens da COB. Mas aí aconteceu o racha em que expulsaram os punks da COB, e quem ficou com essa pilha da JuLi foi o Nenê Altro. Ele é uma pessoa carismática, leva todo mundo na lábia, só que ele é falastrão, né. Ele tem uma pira de holofote. Acho que agora conseguiu o que queria, se encontrou, virou tipo o Dinho Ouro Preto do underground [risos]. Mas ele sempre conseguiu aglutinar muita gente. Quando ele fez a JuLi, já não era mais da COB. Nessa época ele não era mais anarcopunk, estava numa transição de falar que era só anarquista, mas que era amigo dos punks. A JuLi não era uma dissidência de várias pessoas, era ele, só. Aí o Nenê chamou uma galera que começou a conhecer, do meio estudantil, do hardcore, que estava formando o straight edge, algo ainda muito nascente…

A gente nem sabia direito o que era straight edge… A primeira vez que ouvi falar disso foi pelo vocalista do No Violence, o Ruy Fernando, que se identificava assim. Rolou aquela aproximação com o No Violence, aí tinha um pessoal estudantil, mais alternativo, que deu origem ao straight edge. Às vezes eu ia nas reuniões, a convivência era boa no começo. A divisão começou depois que o Nenê virou straight edge e veio com umas conversas bestas de achar que o straight edge era uma evolução do punk. Eu acho que se você colocasse como uma vertente o pessoal compreenderia, mas ele queria dizer que os punks estavam por fora. Foi desrespeitoso. O bicho pegou mesmo quando apareceu aquela coisa de Hardline. Aí azedou, porque os hardliners não tinham uma convivência legal.

Nenê Altro: O grande erro do começo foi querer ser de um movimento antes que ele existisse. A Juventude Libertária e o Movimento Anarco-Punk foram grupos que poderiam levar uma sigla de movimento. Mas antes disso, a LITOV, Liga dos Trabalhadores dos Ofícios Vários, cara, tinha quatro pessoas! Como era uma “liga” de quatro pessoas? O Pro-COB, mano, tinha oito pessoas. Como aquilo era uma “confederação operária”? Acho que as pessoas, por tanta necessidade e vontade, erraram nisso. Criaram a sigla antes do movimento existir. Mas não tem como culpar, porque também ninguém sabia o que estava fazendo.

A JuLi foi pro saco quando o straight edge virou religioso. E eu fui um dos grandes responsáveis por isso [risos]. Quando a gente faz merda tem que assumir. Eu na época estava totalmente bitolado com negócio de straight edge, até falando em hardline. É que o hardcore, ele era burro pra caralho, cara. Tinha uma ou outra pessoa esperta, mas o resto era muito burro! E enquanto aqui tinha a influência do Active Minds, de Londres, a coisa ia bem. Agora, quando começou a ir pela Vctory Records, o bagulho ficou uma bosta.

E aqui aconteceu isso. Nós brigávamos, e ao invés de resolver as divergências, segregava. Foi separando tanto até que se chegou aos pequenos grupos. E foi aí que acabou a JuLi. Os straight edges não queriam mais se relacionar com quem não era drug free, o que foi uma coisa absurda. As pessoas viraram Testemunha de Jeová, achavam que só elas iam pro Céu, entendeu? Só eles estavam certos, eram melhores. Isso é uma coisa errada, achar que é melhor que os outros. E foi isso, cara. Se por um lado eu criei a Juventude Libertária ao lado de outros, quando fiquei fanático pelo straight edge, acabei com o bagulho.

BIBLIOTECA DO CCS. FOTO: FELIPE LAROZZA/VICE

Antônio Carlos: Em 92, uma geração já mais distante da COB se aproxima do CCS novamente. Aí você tem o MAP (Movimento Anarco-Punk), o KRAP (Koletivo de Resistência Anarco-Punk) e todas as ramificações, um monte de coletivos. Isso se mantém lá na COB, mas um grupo significativo sai, vem pro CCS, e com eles vêm um monte de outras pessoas. Essas anarcopunks já estão mais amadurecidos, mas com algumas incongruências pra resolver. Aquelas coisas de “Nós somos a linha de frente. Eles são teóricos, nós somos práticos.” A coisa da violência…

Nenê Altro: Existiam alguns punks, como o Carlinhos, que eram do grupo pró-COB, e já faziam parte da movimentação anarcopunk existente em Mauá. Mas dizer que o anarcopunk nasceu na COB, isso é mentira. Ele estava pra surgir de qualquer forma. Porque já tinha o Pica-Pau, por exemplo, que ia nos eventos da COB e não fazia parte. A COB foi o seguinte: existia a COB dentro do CCS e a que foi expulsa do CCS. Foi bem a época que eu peguei. Quando entrei no núcleo pró-COB, me falaram: “Estamos nos afastando do CCS.” Então nem cheguei a estar ali no meio. Já tinha esse negócio de fazer um trabalho junto dos punks e tal. Só que o anarcopunk já tinha um núcleo fora da COB. A ideia era juntar todos os anarquistas. E ali dentro mesmo alguns se declaravam anarco-sindicalistas e não queriam nada com os punks. Rolava tudo isso. Apesar de serem umas dez pessoas, eles se levavam muito a sério [risos].

A partir de 87, 88, já existia a movimentação anarcopunk. A COB, junto com o Núcleo de Consciência Punk, os primeiros dissidentes do Coletivo Libertário, fundou aquele grupo ali da Brigadeiro Tobias. A JuLi foi bem depois, em 92. Existia a Juventude Libertária da COB, mas a JuLi independente surgiu quando rachamos com o próprio MAP. Porque o anarcopunk começou a ficar uma coisa muito pesada, de briga, muita bebida, e estava surgindo o straight edge. Então a JuLi era uma coisa tipo os straight edges que eram anarquistas.

Isso é uma coisa da qual me arrependo muito. Se eu pudesse fazer diferente, não teria separado a Juventude Libertária do MAP. Eu teria falado pra gente enfrentar as diferenças. Acho que o movimento teria ganhado mais. Mas eu era jovem, moleque, inconsequente e burro [risos]. E outra: as nossas discussões do comecinho do anarcopunk eram tão profundas dentro da ideologia que chegavam a ser enfadonhas. Mas era bom, saíamos de lá munidos de coisas que até se comentava que falávamos um português que ninguém mais falava. Isso, pra nós, que éramos formados em escola pública, em comunidade carente, era resultado do nosso autodidatismo. A nossa formação vinha de nós mesmos.

MARIA HELENA NO BAR E RESTAURANTE AL JANIAH, EM OUTUBRO DE 2016. FOTO: LARISSA ZAIDAN/VICE

Maria Helena: Eu comecei a me interessar pelo punk em 88, tinha uns 13 anos, mas cheguei no punk pelo anarquismo. Fiz um caminho inverso. Comecei a fazer questionamentos na escola, a falar com os professores. Aí fui pesquisar nos sebos. Era muito difícil naquela época achar livros a respeito. Acabei achando aquele O Anarquismo e a Democracia Burguesa a um preço acessível. Esse livro ligou a chave. Tinha textos do Bakunin, Malatesta… O professor conhecia o CCS e me passou o endereço. Mesmo assim aquele não era um lugar ao qual eu me sentia propícia. Pensava: “Como vou dialogar com um pessoal de faixa etária e cultural tão diferentes?”. Nessa época eu ouvia muito aquele programa do Redson (Cólera), Independência ou Morte. Acho que eles propagavam bem a questão do punk pra época. Eles falavam dos fanzines, das manifestações que estavam começando a ocorrer. E começaram a falar de leve sobre o anarquismo. Aí percebi que o punk tinha mais a ver comigo, pela questão de classe e faixa etária. Aí fui atrás do pessoal punk.

No programa Independência ou Morte eles davam informação de onde ia ter som, e tudo mais. Eu era de São Caetano do Sul, e tinha um pessoal do ABC Paulista que colava em Diadema. Porque sempre tinha som lá no Teatro Clara Nunes, na Praça da Moça. Comecei a ir. Eu achei legal porque o pessoal já era um pouco distante daquele estereótipo do Punk 80, de gangue. Isso foi no final de 88. O pessoal não era gangue, eles chamavam de “banca”. Todo mundo ia lá, não era territorialista. Ia mais gente do ABC por conta da facilidade. Ia gente de Mauá, Santo André, São Bernardo. Mas também ia uma galera de Santo Amaro pra lá.

Nenê Altro: Um dia fui intimado lá em Guarulhos, onde eu morava, por uma gangue chamada R.A. (Rebeldes Anarquistas). Me tomaram camiseta e tudo. Só que aí eu voltei lá depois e falei pros caras que eu curtia o som e queria colar com eles e tal. Foi aí que conheci uns punks de verdade. E a R.A. era o Punks da Cidade, de Guarulhos (São Paulo). E em 86 comecei a andar com a galera um pouco mais pra lá de Santana, no Tio Sam, lugares por ali. Quando vi o Ariel (Invasores de Cérebros)… Na época eu não falava com ele… Eu era criança, admirava ele, pra mim parecia algo distante. E de repente ele estava ali no meio dando discurso. Ele, o Vitão (Punks da Morte). Eu lembro até hoje de um show em Guarulhos, um dos primeiros a que fui, e jogaram um molotov lá dentro.

O Ariel e o Vitão estavam lá, não sei se foi o Invasores de Cérebro que tocou, ou H2SO4. Ficava olhando e falava, “Olha, mano! O Ariel!” [risos]. E depois virei brother do cara. Era uma coisa muito mágica… Lá pra 86, quando começou a ter muito problema de briga e drogas. Havia esse pessoal mais velho, e também aqueles que eram mais roots mesmo, de gangue. Aí eles impunham: “Ou você usa droga, ou está com a gente.”; “Na hora da briga, se correr, vai apanhar.” Foi quando comecei a andar sozinho e acabei encontrando a galera da Bela Vista, que mais tarde se tornaria a Devastação Punk. No começo não era gangue, mas só uma turminha. Foi meu primeiro contato com o anarcopunk também.

Loquinho: Eu conheci o movimento anarcopunk numa manifestação de 1° de Maio, em 1990. Conheci o Ivan, grande figura, e ele me apresentou para algumas pessoas. Peguei alguns panfletos e publicações e alguns contatos. Simpatizei logo de cara, amor à primeira vista, e fui convidado a participar de algumas reuniões.

Josimas Ramos: Com 14 anos um amigo começou a se identificar muito com a questão do punk. Eu não entendia muito bem o que era, mas ele me deu uma fitinha, falou pra eu ouvir, e me chamou pra ir num show. Eu tentei ser o mais parecido com ele, esteticamente. Consegui uma bota, uma camiseta branca, fiz um “(A)”, e fui pro show. Cheguei lá e fiquei fascinado. A galera trocando fanzine. Era um show punk mesmo, em cima de um caminhão. Lembro-me das bandas: Doutrina Decadente, AI-5, Dever de Classe e Antropofobia. Voltei pra casa com uma pilha de zine e umas cinco, seis demos. Eu me identifiquei, porque as pessoas estavam fazendo aquilo que tinham vontade. Acho que isso foi em 86. A galera já fazia zine. E alguns, inclusive, eram reproduzidos um por um à mão. A pessoa fazia até 20 cópias sozinha e entregava. Era muito legal. A galera era muito pobre, mas produzia.

Os zines tinham de tudo. Desde entrevistas com as bandas até coisas que estavam acontecendo no dia a dia. E nesse evento descobri que o pessoal se reunia diariamente às cinco da tarde numa praça. Fui pra praça. Cheguei super cedo, estava ansioso. Tenho uma lembrança muito viva de um cara chegando com um bumbo na cabeça, o outro com um amplificador, daqueles multiuso, aí de repente alguém subiu no poste e fez uma ligação elétrica… ou seja, ia rolar um show ali em plena segunda-feira! No dia seguinte eu também já estava fazendo a mesma coisa, ajudando a pendurar o fio. Foi assim que conheci o punk.

JOSIMAS TROCANDO UMA IDEIA COM A VICE NA CASA DA NO GODS EM ITANHAÉM. FOTO: FELIPE LAROZZA/VICE

Enquanto isso, na Zona Sul…

Paulo Poeta: O Josimas [Execradores] morava perto de mim no Jardim Orion, e ele organizava uns sons lá num bar que era o Berimbau’s Bar. Passei por lá um dia, vi um cartaz de show e decidi colar. Não conhecia ninguém, fui sozinho. No dia seguinte, passei em frente do bar e a galera estava lá para buscar o equipamento. O Josimas e o pessoal que era do Coletivo Altruísta, o Alan, que tocava no Metropolixo, o Jean, o Silvio, a Cris, um monte de gente. Ele me deu um flyer do Execradores cujo endereço era da casa dele! Olha as doideras, né. Ele disse que morava lá e me convidou pra colar quando quisesse. Acabei colando. A partir daí comecei a ir nos rolês e nisso me envolvi com o Coletivo Altruísta. Depois de um tempo entrei nas bandas. No Altruísta tinha um pessoal do Grajaú, Jardim Eliana, e nós, o Josimas e eu, que morávamos próximos ao Sesc. De modo geral nos reuníamos na casa do Josimas mesmo. Lá eles tinham montado um quartinho pra todo mundo ensaiar. Isso foi em 93.

…e na Zona Oeste

Johnny Revolta: Tinha um rolê num bar chamado Car Wash, o pessoal da Zona Oeste colava tudo lá. Fui me malandreando ali, conhecendo outros lugares, lá tinha treta com os carecas e tal… A coisa da manifestação foi o que me chamou mais atenção. Na banca tinha pessoal de Osasco, Carapicuíba, Barueri, vários indivíduos. Tinha um pessoal que vinha do Jaraguá. O rolê de São Paulo já era outro.

Alguns caras já vinham desde a segunda metade dos anos 80 que eram os Hardcore de Osasco. Inclusive tem até uma foto naquela capa do Kaos 64 que é o cara já careca, eram punks que viraram carecas depois. Hardcore era só o nome, na verdade era postura careca tradicional. Teve gente que virou até white power né, cara. Em 92 a gente montou uma banca chamada Oeste Punks, justamente pro pessoal que surgia não andar com os Hardcore de Osasco, o point dos caras era com os carecas. Teve som lá da banda deles com Vírus 27, Puro Impacto, Suco Gástrico, Catástrofe Social, Estaca Zero… Eram as bandas que se diziam punks, e os carecas colavam no som deles, eles colavam no som dos carecas. E a gente era os punks da rua, queria fazer manifestação, andava no visual podrão mesmo. Os caras andavam alinhadinho. Eles vinham intimar a gente na rua, chamar de “anarcopunk” por causa do visual, e eu nem conhecia os anarcos pessoalmente. Só que aí a gente, curioso, quis ir atrás dessa galera.

ANARCOS EM PROTESTO PELA LIBERDADE DE MUMIA ABU-JAMAL EM FRENTE AO CONSULADO AMERICANO. FOTO: ARTHUR DANTAS/ARQUIVO PESSOAL

Rolê de gangue vs rolê anarco

Marcolino Jeremias: Verdade seja dita, no final dos anos 80, início dos 90, nenhuma das bandas precursoras da cena punk no Brasil que ainda estavam na ativa se diziam punks. Todas tinham um discurso mais ou menos parecido com “a gente começou no meio punk, mas hoje evoluímos e não queremos mais ser vinculados a nenhum rótulo”. É só pegar as entrevistas de nomes como Ratos de Porão, Inocentes, Garotos Podres e outras, dessa época, e constatar isso. Nenhuma delas se assumia punk. O punk era algo que havia feito parte da história dessas bandas, mas que havia ficado num passado distante.

Havia muitas diferenças entre a primeira cena punk brasileira e a cena anarcopunk. O anarcopunk assumia explicitamente uma postura política, o anarquismo, e aos poucos foi aprendendo mais sobre o assunto, se aprofundando até se tornar, de fato, um grupo – embora ainda contracultural – de atuação política. Lógico que esse caminho foi percorrido lentamente, entre muitos erros e alguns acertos. Mas esse é o principal diferencial para mim entre os grupos punks e os grupos anarcopunks: enquanto os punks se reuniam para organizar os sons, fazer os zines e outras coisas mais relacionadas especificamente à cena underground, os coletivos anarcopunks, além de fazerem tudo isso, também organizavam manifestações e protestos políticos, palestras anarquistas, fundavam bibliotecas, criavam distribuidoras de livros, alguns viviam em comunas (espaços de convivência coletiva) autogestionárias, planejavam boicotes, atuavam com outros grupos políticos (não necessariamente anarquistas, desde que tivessem uma postura apartidária), procuravam atuar em parceria com diferentes coletivos anarcopunks e anarquistas de forma federativa e tinham, de fato, um aspecto de célula política, ao ponto de até aceitarem como militantes, dentro de seus próprios coletivos, pessoas que não eram punks, mas que desenvolviam uma militância anarquista. Lógico, deixando bem frisado aqui, nada disso era perfeito. Existiam vários equívocos, principalmente no início, mas o objetivo principal (para mim, o que fez toda a diferença) era a iniciativa de ter uma atuação política.

Para se comprovar essa diferença entre a cena punk e a cena anarcopunk, é só ver os zines da época. Num zine anarcopunk, se havia uma entrevista com uma banda e essa entrevista tinha, por exemplo, dez perguntas, com certeza oito delas remontavam a questões políticas dentro e fora da cena, enquanto apenas duas abordavam a história da banda, formação, próximas apresentações/lançamentos e demais questões musicais. E vários zines anarcopunks foram publicados somente com matérias políticas, textos políticos, sem falar de música, sem resenhas de som e, às vezes, até sem referência alguma à cena punk ou anarcopunk. A principal preocupação era o debate político. E isso se refletia também nas apresentações dos conjuntos anarcopunks, que, antes de tocar um som, faziam um discurso explicando a letra do som ou a ideia defendida pelo grupo.

ESPETANDO O CABELO NA CASA DE WILLIAM & WELLINGHTON. FOTO: MARIA HELENA/ARQUIVO PESSOAL

Ivan Ribeiro: No dia 26 de dezembro de 86, num rolê na Praça Roosevelt junto com um compa, fomos atacados pela Funeral Punk. Fomos roubados e espancados. Tive uma perfuração no pescoço e outra no ombro, o nariz quebrado e a jaqueta roubada. Fui pra casa, do Centro até o Bom Retiro, a pé. Meu amigo conseguiu correr pro outro lado. Com a camiseta toda ensanguentada, fui embora puto da vida, pensando “Porra, se isso é ser punk, então eu não sou punk. Vão tudo se foder!”. Fiquei assim durante um tempo, evitei os rolês no Centro. Passado o trauma e a dor, eu fui me recuperando. Continuei na cena punk, evitando lugares de risco para alguém que, sendo punk, não andava em gangues. Mantinha os contatos com movimentos anarquistas e, também, com punks, do Subúrbio, da City, circulando em meio a todos sem participar efetivamente de nenhuma banca. Na condição de punk e anarquista, eu propunha ações em conjunto com os punks das gangues. Realizávamos, em janeiro, o evento Anarquia, Arte & Poesia, no qual, à Praça Ramos, levávamos poesia e desenhos em varais literários e artísticos e passávamos o dia dialogando com a população. O evento acontecia ao longo dos quatro sábados do mês.

Depois, passamos a organizar o Ciclo Antimilitarista, também na Ramos, ao longo de quatro sábados, discutindo violência policial, ditadura, luta anti-nuclear. Nessa época, misturava-se o pessoal da COB, do CCS, da Juventude Libertária, Punks do Subúrbio e da City. Logo, nós não tomamos contato com a vertente anarcopunk, nós criamos essa vertente. Tem um panfleto antológico dos Punks do Subúrbio, chamado “Movimento Punk em Busca do Anarquismo”, feito pelo amigo Birimba. Nele, é externada a busca do punk pelo anarquismo. Em 87, no 7 de setembro, ocorreu uma brutal repressão à passeata antimilitarista. Houve muitas prisões e torturas aos punks. Na sequência da repressão, fui na Galeria do Rock procurar o pessoal que tinha sofrido a repressão. Creio que, naquele momento, durante uma reunião em pé na Galeria do Rock, nascia em Sampa o anarco-punk. Foi quando nós, anarquistas, procuramos os Punks do Subúrbio para propor união e parceria.

Nessa época, eu, que já estava com um pé no punk e outro no anarquismo, por meio da COB trouxe um companheiro da CNT (Confederação Nacional do Trabalho) da França, o Jean Gabriel, ao Brasil. Ele era anarcopunk nos moldes que estávamos caminhando aqui no Brasil. Nesse período, entre 1988-89, eu fazia viagens constantes ao Rio de Janeiro, a Curitiba e outras localidades, fortalecendo a ideia da fusão punk e anarquista. No nordeste, a coisa também estava acontecendo. Lembro que nessa época eu comentei com um compa punk a ideia de criarmos o anarcopunk e ele desdenhou, dizendo que não precisávamos criar novas nomenclaturas, pois já existiam muitas. Sim, nomenclaturas existiam, mas na forma de gangues punks regionalistas, muitas delas resistentes de verdade, mas com muitas contradições. A ideia era efetivamente alicerçamos a cultura do punk com a ideologia anarquista. Politizar a cena. Aliar a estética punk, a transgressão e sua radicalidade, com o anarquismo. Esta foi a ideia geradora do anarcopunk.

ARQUIVO DO CLÁSSICO FANZINE UNITED FORCES. IMAGEM CEDIDA POR MARCELO R. BATISTA

Katy Fon: Eu frequentava um bar no Bixiga chamado Chopp Hause, uma espelunca tão fedida e horrível que até hoje eu me pergunto como tinha coragem de frequentar. Um dia nesse bar, já muito chapada, acabei apanhando de um grupo de carecas. Até hoje não sei porque apanhei, mas foi isso que me levou a procurar o grupo inimigo daquela gente. Fui procurar os punks e acabei conhecendo os punks da ZN, que era onde eu morava. Era o pessoal da Reformatório Punk, e uns punks da sul, Kaos Punk. Andei um bom tempo com eles.

Conheci o punk através das gangues, a gente saía todo final de semana para ir em shows, tretar com careca ou outras gangues e ficar chapada. Mas tudo isso começou a me incomodar. Venho de uma família de ex-presos políticos militantes. Meus pais sempre estiveram envolvidos com política e eu cresci nesse universo. Me lembro do meu pai me carregando para comícios das Diretas, tenho fotos na prisão, quando íamos visitar meu tio (foi um dos últimos a sair da cadeia, na pós-anistia), e meus pais sempre me contaram das histórias de prisão, tortura e exílio. Então o mundo punk das tretas, drogas e bebidas começou a se mostrar muito pequeno. Um dia, no lançamento de um livro chamado Massacre, do padre Silvano Sabatini, conheci o Alex, da Comuna Golai Polé. Conversamos, e achei o máximo um punk preocupado com questões indígenas, que era o tema do livro. Após esse encontro conheci a Comuna Goulai Polé, os anarcopunks, e, quando vi, já estava envolvida com as pessoas e algumas atividades.

Nos outros rolês, já estava farta de determinados comportamentos e posicionamentos de alguns indivíduos. Coisas ruins como homofobia, ganguismo, machismo, sexismo, e uma certa “amizade” com alguns skins. Eu realmente pegava mal com isso. No anarcopunk não rolavam essas coisas, muito pelo contrário, o pessoal tinha um posicionamento muito firme. A questão do combate ao racismo, à homofobia, o fato de as meninas serem muito articuladas. Comecei a tomar conhecimento de autoras, feminismo, a aprender muito com algumas pessoas, gente que respeito e por quem tenho muito carinho. Que me ensinaram com humildade, sem cobranças, sem arrogância. Maria, Ivan, Diego Duenhas, Alex da Comuna, e, mais tarde, Estilou, Naíra, Kelly. Mesmo existindo uma certa treta entre essas pessoas, que era da Comuna e da Casa da Esquina. A primeira, formada por um pessoal mais politizado, do MAP e tal; a segunda, uma galera de estética mais caótica, mas muito interessante do punk, mais niilista, que me seduziu por um tempo. São pessoas que me cativaram e das quais sinto falta até hoje. Isso tudo que o anarcopunk me apresentou eu nunca vivenciei no meio das gangues.

Leia a segunda parte da História Oral do Anarcopunk no link abaixo:

 

 

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Conheça as origens do movimento que vinculou o punk à ação política no começo dos anos 90.

o princípio era pra chocar, e a provocação era a máxima do punk, e o que importava era desobedecer e destruir. Ou melhor: se autodestruir. Na segunda metade dos anos 1970, começo dos 80, só o punk enquanto identidade foi capaz de incorporar — estética e comportamentalmente — a angústia de uma juventude completamente esquecida. Quando passou a cuspir na cara do sistema sua generalizada descrença na espécie humana, revertendo lixo, pobreza e falta de rumo em força criativa, o punk abriu um inédito vinco na cultura de massa para a canalização do tédio, do descontentamento que vinha dos subúrbios ingleses e norte-americanos. Com o tempo, a ideia contagiou grande número de roqueiros marginalizados pelos quatro cantos do planeta. Ao passo em que transpôs a crueza das primeiras críticas, o estigma auto-depreciativo do movimento ganhou um aspecto mais politizado e ativista no mundo inteiro.

Mas ocorre que, se no movimento inglês a mídia enciclopédica atribui toda uma complexa história a somente Sex Pistols, Clash & Cia, no Brasil, o recorte geralmente imposto ao tema faz parecer que só existiu a cena impulsionada pelas coletâneas Ataque SonoroO Começo do Fim do MundoGrito Suburbano e SUB. Tudo, de fato, começou ali. Não dá para falar do punk BR sem falar de Restos de Nada, Ratos de Porão, Olho Seco, Cólera, Garotos Podres, Inocentes, etc. Mas não foi ali que a história acabou. Aquele foi só o momento em que se acendeu a fagulha. O primeiro capítulo. Fora que o punk vai um bocado longe da música. É preciso avançar na percepção.

Tem muita coisa interessante perdida abaixo da superfície, raramente abordada, a não ser pelos próprios zines e veículos punks/libertários. Uma delas é a formação da vertente anarcopunk, que colaborou para definir toda a ética e modo de agir do anarquismo contemporâneo. Fui atrás de fatos que só se descobrem na conversa de punk pra punk e detectei que em 87, por exemplo, um conjunto de João Pessoa (PB), o Disunidos, já se assumia “anarco-punk”. Muito louco, porque a sigla MAP (Movimento Anarco-Punk) só surgiria no começo dos anos 90, quando jovens interessados em fazer algo além do barulho, dos rolês em banca, das tretas entre gangues, da chapação, do pogo e do visual, criaram de fato as primeiras células assumidamente anarquistas.

Isso inspirou a busca pelo resgate das histórias fundadoras do anarcopunk em São Paulo, onde ganhou força antes de se espalhar pelo Brasil. As falas reunidas nesta série assinalam o contexto em que tal geração buscou uma reciclagem do anarquismo clássico e da anti-arte para os novos tempos. Algumas das iniciativas pioneiras nesse sentido foram o ACR (Anarquistas Contra o Racismo), Coletivo Altruísta, Coletivo Anarco-Feminista e o KRAP (Koletivo de Resistência Anarco-Punk).

Junto com os coletivos, vieram as primeiras publicações assumidamente representantes da postura anarcopunk, a exemplo do informativo O Iconoclasta, e também se constituíram as bandas Pós-Guerra, Ira dos Corvos, Castitate Sociale, Vala Negra, Execradores, Metropolixo e muitas outras. Em termos de militância, os anarcopunks estiveram entre os primeiros a colocar em pauta uma porção de questões no meio hardcore, como direitos dos animais — vegetarianismo/veganismo, inclusive —, feminismo, ecologia, permacultura, e até ajudaram na estreia do Dia do Orgulho Gay — hoje Parada do Orgulho LGBT — de São Paulo, em 97.

Passados cerca de dois anos de encontros, pesquisas, coletas e transcrições de conversas e edições, apresento finalmente um apanhado daquilo que penso que todos interessados no punk nacional enquanto movimento político, e não só um elemento da cultura pop, deveriam conhecer, com depoimentos focados no período entre 1988-2001. Um pequeno esforço para que tudo o que essa galera fez em nome de seus ideais, mesmo diante de certa ingenuidade e atropelo, não caia no esquecimento. Mas, acima de tudo, inspire novas formas de resistência ao conservadorismo.

A primeira parte, de quatro textos, se volta ao contato inicial que as fontes tiveram com o punk e o anarcopunk. Na semana que vem, abordaremos como o lance todo se desenvolveu.

Punkniks: O começo

Fontes: Antônio Carlos (Centro de Cultura Social), Diego Divino Duenhas (Movimento Anarco-Punk), Ivan Ribeiro (Anarquistas Contra o Racismo), Johnny Revolta (CCS Vila Dalva), Josimas Ramos (Execradores), Katy Fon (MAP), Keli de Fátima (KRAP – Koletivo de Resistência Anarco-Punk, zine Libertação Feminina), Marcolino Jeremias (ULBS – União Libertária da Baixada Santista), Maria Helena (Coletivo Anarco-Feminista, banda Ira dos Corvos, MAP), Marina Knup (Imprensa Marginal), Nenê Altro (Juventude Libertária), Paulo Poeta (Amor, Protesto y Ódio), Ruivo Lopes (ULBS), Sergio Valdez “Loquinho” (Coletivo Altruísta), Silvio Shina (Coletivo Altruísta, zine Punto de Vista Positivo).

CARLINHOS E IVAN EM 92 NA PRAÇA DA SÉ. FOTO POR: KELI DE FÁTIMA TEIXEIRA (JOSIMAS/ARQUIVO PESSOAL)

Ivan Ribeiro: Por volta de 1981-82, um amigo (Cícero) e eu começamos a ler sobre anarquismo e sobre geração beat, dadaísmo, surrealismo, poesia. Na escola e no bairro, eu era um desencaixado. Saía nos rolês com meu amigo, para longas caminhadas em direção ao Centro de São Paulo. Nos considerávamos dois perdidos numa noite suja, ou, verdadeiros beatniks naqueles anos 80. Em 85, do lado de casa teve o festival punk do Radar Tantã. Na parte da tarde, eu estava na rua sentado com os colegas e passaram alguns punks indo montar a aparelhagem. E alguns tinham o case da guitarra com alças de mochila, colocados nas costas. Aquilo me impactou. A estética, o visual, a transgressão. Tinha descoberto naquele momento o que era punk. Fui no festival, que eram dois finais de semana. No primeiro, tudo de boa. No segundo, treta e festival abortado. Mas pra mim a coisa já tinha acontecido.

Continuei nos rolês solitários com meu amigo, e nas leituras anarquistas, dadaístas, surrealistas, beatniks. Em 86, por meio dos lambe-lambes que o Coletivo Libertário fazia no Centro de São Paulo, tivemos conhecimento de que o CCS (Centro de Cultura Social) daria um curso sobre anarquismo na Vila Buarque (Escola de Sociologia e Política da USP). Fomos, e lá conhecemos o recém-inaugurado CCS e toda a turma de anarquistas das antigas. Os que fizeram a ponte do anarquismo do começo do século até aqueles dias. Jaime Cubero, Martinez, Morelli e Zeca Orsi Morel (esses dois, integrantes mais recentes). Eu e meu amigo Cícero tivemos contato com toda a cena anarquista naquele momento. E começamos a frequentar o CCS, na rua Rubino de Oliveira, número 85. Eram palestras, debates e seminários sobre anarquismo, ecologia, antimilitarismo, anticlericalismo.

O lugar já era frequentado por outros punks. Não éramos muito entendidos pelos velhinhos do CCS, que desconfiavam de nossa estética, nosso visual e nossa radicalidade. Tivemos aprendizados e problemas. Criamos o coletivo NAAR (Núcleo Anarquista Ação Radical), e um zine: Desobedecendo. Começamos, a partir da COB (Confederação Operária Brasileira), uma organização anarco-sindicalista, inicialmente dentro do CCS, e depois, após um racha, passamos a atuar fora do CCS. Na COB, começamos a ter problemas com a falta de compreensão da parte dos anarco-sindicalistas sobre nossa cultura. Dentro da COB, fomos a vários estados montar as Juventudes Libertárias e muitas vezes encontrávamos punks nos rolês e já conversávamos sobre punk e anarquismo, porém nada sistemático, que envolvesse o anarcopunk.

Antônio Carlos: A partir de 85, com o surgimento do CCS, os anarquistas passam a ter um lugar para se reunir. E lá nós fomos bem recebidos, mas não entendidos. Porque quem tava lá tinha mais de 60 anos. Eu tinha 20 quando cheguei. O CCS estava sendo fundado, em suas primeiras atividades, e fui porque o Gurgel, que depois virou careca, tinha um fanzine, e eu fazia zine. Nós trocávamos informações. Eu já tinha uma preocupação com movimento estudantil, essas coisas, queria voltar a estudar. Eu era metalúrgico sindicalizado, e conversando com ele descobri que ia surgir o CCS. No CCS houve esse estranhamento. Os punks se aproximaram e ficaram até 87, quando houve um grande rompimento. Essa galera, a juventude que criaria depois o anarcopunk, acompanha a COB, que rompe com o CCS. De 88 até 91, o CCS tem uma relação com os punks, mas distante.

Os punks aparecem individualmente, ou em grupo, mas não tem o contato no sentido de querer ficar porque a referência deles era a COB. Aí você tem essa coisa geracional. No CCS o mais novo era o Zeca, que devia ter uns 40 e poucos anos. Os outros caras tinham de 70 pra cima. Enfim, o pessoal foi pra COB e criou-se uma animosidade. O Centro de Cultura Social é um espaço que sempre lutou para preservar a memória e difundir a ideia anarquista. Então como as principais atividades do CCS eram as palestras, o pessoal começou a ficar inquieto, e achou que a COB tinha mais a ver.

ANTÔNIO CARLOS, DO CCS. PUNK DAS ANTIGAS, ORGANIZADOR DO ARQUIVO PUNK, FOTO: FELIPE LAROZZA/VICE

Nenê Altro: Sempre fui muito bem tratado no CCS, o Jaime passava horas me explicando as coisas. Tinha professores ali, que sentavam ao meu lado e ensinavam coisas, de publicação, disso, daquilo, como chegar nas pessoas. Mas a verdade é que o punk chocava muito. Não é que nem hoje, que tem o Green Day. Que já passamos pela MTV, Good Charlotte, sabe? O punk chocava demais. Eles não entendiam a anti-arte do punk. Ao mesmo tempo em que publicavam Surrealismo e Anarquismo, não compreendiam o punk. Porque era algo palpável, não era o André Breton, distante. Era o cara que estava lá sentado na frente dele. Um choque cultural normal. Não é porque o cara era anarquista que ele era obrigado a ser alguém super cabeça aberta com tudo.

Eu conheci muitos anarquistas que eram cabeça fechada. É normal, cara, cada um tem a sua limitação, o seu crescimento. O Jaime Cubero, pelo que fiquei sabendo, chegava no Isaac, um cara que foi da Juventude Libertária, e dizia: “Esses caras aqui estão falando de anarquismo, vai lá falar com eles.” E o Isaac ia lá convidar o pessoal pra ir no CCS. Ele tinha essa visão, porém outros, não.

Maria Helena: Daí surgiu a Juventude Libertária, que no começo era pra ser uma ala dos jovens da COB. Mas aí aconteceu o racha em que expulsaram os punks da COB, e quem ficou com essa pilha da JuLi foi o Nenê Altro. Ele é uma pessoa carismática, leva todo mundo na lábia, só que ele é falastrão, né. Ele tem uma pira de holofote. Acho que agora conseguiu o que queria, se encontrou, virou tipo o Dinho Ouro Preto do underground [risos]. Mas ele sempre conseguiu aglutinar muita gente. Quando ele fez a JuLi, já não era mais da COB. Nessa época ele não era mais anarcopunk, estava numa transição de falar que era só anarquista, mas que era amigo dos punks. A JuLi não era uma dissidência de várias pessoas, era ele, só. Aí o Nenê chamou uma galera que começou a conhecer, do meio estudantil, do hardcore, que estava formando o straight edge, algo ainda muito nascente…

A gente nem sabia direito o que era straight edge… A primeira vez que ouvi falar disso foi pelo vocalista do No Violence, o Ruy Fernando, que se identificava assim. Rolou aquela aproximação com o No Violence, aí tinha um pessoal estudantil, mais alternativo, que deu origem ao straight edge. Às vezes eu ia nas reuniões, a convivência era boa no começo. A divisão começou depois que o Nenê virou straight edge e veio com umas conversas bestas de achar que o straight edge era uma evolução do punk. Eu acho que se você colocasse como uma vertente o pessoal compreenderia, mas ele queria dizer que os punks estavam por fora. Foi desrespeitoso. O bicho pegou mesmo quando apareceu aquela coisa de Hardline. Aí azedou, porque os hardliners não tinham uma convivência legal.

Nenê Altro: O grande erro do começo foi querer ser de um movimento antes que ele existisse. A Juventude Libertária e o Movimento Anarco-Punk foram grupos que poderiam levar uma sigla de movimento. Mas antes disso, a LITOV, Liga dos Trabalhadores dos Ofícios Vários, cara, tinha quatro pessoas! Como era uma “liga” de quatro pessoas? O Pro-COB, mano, tinha oito pessoas. Como aquilo era uma “confederação operária”? Acho que as pessoas, por tanta necessidade e vontade, erraram nisso. Criaram a sigla antes do movimento existir. Mas não tem como culpar, porque também ninguém sabia o que estava fazendo.

A JuLi foi pro saco quando o straight edge virou religioso. E eu fui um dos grandes responsáveis por isso [risos]. Quando a gente faz merda tem que assumir. Eu na época estava totalmente bitolado com negócio de straight edge, até falando em hardline. É que o hardcore, ele era burro pra caralho, cara. Tinha uma ou outra pessoa esperta, mas o resto era muito burro! E enquanto aqui tinha a influência do Active Minds, de Londres, a coisa ia bem. Agora, quando começou a ir pela Vctory Records, o bagulho ficou uma bosta.

E aqui aconteceu isso. Nós brigávamos, e ao invés de resolver as divergências, segregava. Foi separando tanto até que se chegou aos pequenos grupos. E foi aí que acabou a JuLi. Os straight edges não queriam mais se relacionar com quem não era drug free, o que foi uma coisa absurda. As pessoas viraram Testemunha de Jeová, achavam que só elas iam pro Céu, entendeu? Só eles estavam certos, eram melhores. Isso é uma coisa errada, achar que é melhor que os outros. E foi isso, cara. Se por um lado eu criei a Juventude Libertária ao lado de outros, quando fiquei fanático pelo straight edge, acabei com o bagulho.

BIBLIOTECA DO CCS. FOTO: FELIPE LAROZZA/VICE

Antônio Carlos: Em 92, uma geração já mais distante da COB se aproxima do CCS novamente. Aí você tem o MAP (Movimento Anarco-Punk), o KRAP (Koletivo de Resistência Anarco-Punk) e todas as ramificações, um monte de coletivos. Isso se mantém lá na COB, mas um grupo significativo sai, vem pro CCS, e com eles vêm um monte de outras pessoas. Essas anarcopunks já estão mais amadurecidos, mas com algumas incongruências pra resolver. Aquelas coisas de “Nós somos a linha de frente. Eles são teóricos, nós somos práticos.” A coisa da violência…

Nenê Altro: Existiam alguns punks, como o Carlinhos, que eram do grupo pró-COB, e já faziam parte da movimentação anarcopunk existente em Mauá. Mas dizer que o anarcopunk nasceu na COB, isso é mentira. Ele estava pra surgir de qualquer forma. Porque já tinha o Pica-Pau, por exemplo, que ia nos eventos da COB e não fazia parte. A COB foi o seguinte: existia a COB dentro do CCS e a que foi expulsa do CCS. Foi bem a época que eu peguei. Quando entrei no núcleo pró-COB, me falaram: “Estamos nos afastando do CCS.” Então nem cheguei a estar ali no meio. Já tinha esse negócio de fazer um trabalho junto dos punks e tal. Só que o anarcopunk já tinha um núcleo fora da COB. A ideia era juntar todos os anarquistas. E ali dentro mesmo alguns se declaravam anarco-sindicalistas e não queriam nada com os punks. Rolava tudo isso. Apesar de serem umas dez pessoas, eles se levavam muito a sério [risos].

A partir de 87, 88, já existia a movimentação anarcopunk. A COB, junto com o Núcleo de Consciência Punk, os primeiros dissidentes do Coletivo Libertário, fundou aquele grupo ali da Brigadeiro Tobias. A JuLi foi bem depois, em 92. Existia a Juventude Libertária da COB, mas a JuLi independente surgiu quando rachamos com o próprio MAP. Porque o anarcopunk começou a ficar uma coisa muito pesada, de briga, muita bebida, e estava surgindo o straight edge. Então a JuLi era uma coisa tipo os straight edges que eram anarquistas.

Isso é uma coisa da qual me arrependo muito. Se eu pudesse fazer diferente, não teria separado a Juventude Libertária do MAP. Eu teria falado pra gente enfrentar as diferenças. Acho que o movimento teria ganhado mais. Mas eu era jovem, moleque, inconsequente e burro [risos]. E outra: as nossas discussões do comecinho do anarcopunk eram tão profundas dentro da ideologia que chegavam a ser enfadonhas. Mas era bom, saíamos de lá munidos de coisas que até se comentava que falávamos um português que ninguém mais falava. Isso, pra nós, que éramos formados em escola pública, em comunidade carente, era resultado do nosso autodidatismo. A nossa formação vinha de nós mesmos.

MARIA HELENA NO BAR E RESTAURANTE AL JANIAH, EM OUTUBRO DE 2016. FOTO: LARISSA ZAIDAN/VICE

Maria Helena: Eu comecei a me interessar pelo punk em 88, tinha uns 13 anos, mas cheguei no punk pelo anarquismo. Fiz um caminho inverso. Comecei a fazer questionamentos na escola, a falar com os professores. Aí fui pesquisar nos sebos. Era muito difícil naquela época achar livros a respeito. Acabei achando aquele O Anarquismo e a Democracia Burguesa a um preço acessível. Esse livro ligou a chave. Tinha textos do Bakunin, Malatesta… O professor conhecia o CCS e me passou o endereço. Mesmo assim aquele não era um lugar ao qual eu me sentia propícia. Pensava: “Como vou dialogar com um pessoal de faixa etária e cultural tão diferentes?”. Nessa época eu ouvia muito aquele programa do Redson (Cólera), Independência ou Morte. Acho que eles propagavam bem a questão do punk pra época. Eles falavam dos fanzines, das manifestações que estavam começando a ocorrer. E começaram a falar de leve sobre o anarquismo. Aí percebi que o punk tinha mais a ver comigo, pela questão de classe e faixa etária. Aí fui atrás do pessoal punk.

No programa Independência ou Morte eles davam informação de onde ia ter som, e tudo mais. Eu era de São Caetano do Sul, e tinha um pessoal do ABC Paulista que colava em Diadema. Porque sempre tinha som lá no Teatro Clara Nunes, na Praça da Moça. Comecei a ir. Eu achei legal porque o pessoal já era um pouco distante daquele estereótipo do Punk 80, de gangue. Isso foi no final de 88. O pessoal não era gangue, eles chamavam de “banca”. Todo mundo ia lá, não era territorialista. Ia mais gente do ABC por conta da facilidade. Ia gente de Mauá, Santo André, São Bernardo. Mas também ia uma galera de Santo Amaro pra lá.

Nenê Altro: Um dia fui intimado lá em Guarulhos, onde eu morava, por uma gangue chamada R.A. (Rebeldes Anarquistas). Me tomaram camiseta e tudo. Só que aí eu voltei lá depois e falei pros caras que eu curtia o som e queria colar com eles e tal. Foi aí que conheci uns punks de verdade. E a R.A. era o Punks da Cidade, de Guarulhos (São Paulo). E em 86 comecei a andar com a galera um pouco mais pra lá de Santana, no Tio Sam, lugares por ali. Quando vi o Ariel (Invasores de Cérebros)… Na época eu não falava com ele… Eu era criança, admirava ele, pra mim parecia algo distante. E de repente ele estava ali no meio dando discurso. Ele, o Vitão (Punks da Morte). Eu lembro até hoje de um show em Guarulhos, um dos primeiros a que fui, e jogaram um molotov lá dentro.

O Ariel e o Vitão estavam lá, não sei se foi o Invasores de Cérebro que tocou, ou H2SO4. Ficava olhando e falava, “Olha, mano! O Ariel!” [risos]. E depois virei brother do cara. Era uma coisa muito mágica… Lá pra 86, quando começou a ter muito problema de briga e drogas. Havia esse pessoal mais velho, e também aqueles que eram mais roots mesmo, de gangue. Aí eles impunham: “Ou você usa droga, ou está com a gente.”; “Na hora da briga, se correr, vai apanhar.” Foi quando comecei a andar sozinho e acabei encontrando a galera da Bela Vista, que mais tarde se tornaria a Devastação Punk. No começo não era gangue, mas só uma turminha. Foi meu primeiro contato com o anarcopunk também.

Loquinho: Eu conheci o movimento anarcopunk numa manifestação de 1° de Maio, em 1990. Conheci o Ivan, grande figura, e ele me apresentou para algumas pessoas. Peguei alguns panfletos e publicações e alguns contatos. Simpatizei logo de cara, amor à primeira vista, e fui convidado a participar de algumas reuniões.

Josimas Ramos: Com 14 anos um amigo começou a se identificar muito com a questão do punk. Eu não entendia muito bem o que era, mas ele me deu uma fitinha, falou pra eu ouvir, e me chamou pra ir num show. Eu tentei ser o mais parecido com ele, esteticamente. Consegui uma bota, uma camiseta branca, fiz um “(A)”, e fui pro show. Cheguei lá e fiquei fascinado. A galera trocando fanzine. Era um show punk mesmo, em cima de um caminhão. Lembro-me das bandas: Doutrina Decadente, AI-5, Dever de Classe e Antropofobia. Voltei pra casa com uma pilha de zine e umas cinco, seis demos. Eu me identifiquei, porque as pessoas estavam fazendo aquilo que tinham vontade. Acho que isso foi em 86. A galera já fazia zine. E alguns, inclusive, eram reproduzidos um por um à mão. A pessoa fazia até 20 cópias sozinha e entregava. Era muito legal. A galera era muito pobre, mas produzia.

Os zines tinham de tudo. Desde entrevistas com as bandas até coisas que estavam acontecendo no dia a dia. E nesse evento descobri que o pessoal se reunia diariamente às cinco da tarde numa praça. Fui pra praça. Cheguei super cedo, estava ansioso. Tenho uma lembrança muito viva de um cara chegando com um bumbo na cabeça, o outro com um amplificador, daqueles multiuso, aí de repente alguém subiu no poste e fez uma ligação elétrica… ou seja, ia rolar um show ali em plena segunda-feira! No dia seguinte eu também já estava fazendo a mesma coisa, ajudando a pendurar o fio. Foi assim que conheci o punk.

JOSIMAS TROCANDO UMA IDEIA COM A VICE NA CASA DA NO GODS EM ITANHAÉM. FOTO: FELIPE LAROZZA/VICE

Enquanto isso, na Zona Sul…

Paulo Poeta: O Josimas [Execradores] morava perto de mim no Jardim Orion, e ele organizava uns sons lá num bar que era o Berimbau’s Bar. Passei por lá um dia, vi um cartaz de show e decidi colar. Não conhecia ninguém, fui sozinho. No dia seguinte, passei em frente do bar e a galera estava lá para buscar o equipamento. O Josimas e o pessoal que era do Coletivo Altruísta, o Alan, que tocava no Metropolixo, o Jean, o Silvio, a Cris, um monte de gente. Ele me deu um flyer do Execradores cujo endereço era da casa dele! Olha as doideras, né. Ele disse que morava lá e me convidou pra colar quando quisesse. Acabei colando. A partir daí comecei a ir nos rolês e nisso me envolvi com o Coletivo Altruísta. Depois de um tempo entrei nas bandas. No Altruísta tinha um pessoal do Grajaú, Jardim Eliana, e nós, o Josimas e eu, que morávamos próximos ao Sesc. De modo geral nos reuníamos na casa do Josimas mesmo. Lá eles tinham montado um quartinho pra todo mundo ensaiar. Isso foi em 93.

…e na Zona Oeste

Johnny Revolta: Tinha um rolê num bar chamado Car Wash, o pessoal da Zona Oeste colava tudo lá. Fui me malandreando ali, conhecendo outros lugares, lá tinha treta com os carecas e tal… A coisa da manifestação foi o que me chamou mais atenção. Na banca tinha pessoal de Osasco, Carapicuíba, Barueri, vários indivíduos. Tinha um pessoal que vinha do Jaraguá. O rolê de São Paulo já era outro.

Alguns caras já vinham desde a segunda metade dos anos 80 que eram os Hardcore de Osasco. Inclusive tem até uma foto naquela capa do Kaos 64 que é o cara já careca, eram punks que viraram carecas depois. Hardcore era só o nome, na verdade era postura careca tradicional. Teve gente que virou até white power né, cara. Em 92 a gente montou uma banca chamada Oeste Punks, justamente pro pessoal que surgia não andar com os Hardcore de Osasco, o point dos caras era com os carecas. Teve som lá da banda deles com Vírus 27, Puro Impacto, Suco Gástrico, Catástrofe Social, Estaca Zero… Eram as bandas que se diziam punks, e os carecas colavam no som deles, eles colavam no som dos carecas. E a gente era os punks da rua, queria fazer manifestação, andava no visual podrão mesmo. Os caras andavam alinhadinho. Eles vinham intimar a gente na rua, chamar de “anarcopunk” por causa do visual, e eu nem conhecia os anarcos pessoalmente. Só que aí a gente, curioso, quis ir atrás dessa galera.

ANARCOS EM PROTESTO PELA LIBERDADE DE MUMIA ABU-JAMAL EM FRENTE AO CONSULADO AMERICANO. FOTO: ARTHUR DANTAS/ARQUIVO PESSOAL

Rolê de gangue vs rolê anarco

Marcolino Jeremias: Verdade seja dita, no final dos anos 80, início dos 90, nenhuma das bandas precursoras da cena punk no Brasil que ainda estavam na ativa se diziam punks. Todas tinham um discurso mais ou menos parecido com “a gente começou no meio punk, mas hoje evoluímos e não queremos mais ser vinculados a nenhum rótulo”. É só pegar as entrevistas de nomes como Ratos de Porão, Inocentes, Garotos Podres e outras, dessa época, e constatar isso. Nenhuma delas se assumia punk. O punk era algo que havia feito parte da história dessas bandas, mas que havia ficado num passado distante.

Havia muitas diferenças entre a primeira cena punk brasileira e a cena anarcopunk. O anarcopunk assumia explicitamente uma postura política, o anarquismo, e aos poucos foi aprendendo mais sobre o assunto, se aprofundando até se tornar, de fato, um grupo – embora ainda contracultural – de atuação política. Lógico que esse caminho foi percorrido lentamente, entre muitos erros e alguns acertos. Mas esse é o principal diferencial para mim entre os grupos punks e os grupos anarcopunks: enquanto os punks se reuniam para organizar os sons, fazer os zines e outras coisas mais relacionadas especificamente à cena underground, os coletivos anarcopunks, além de fazerem tudo isso, também organizavam manifestações e protestos políticos, palestras anarquistas, fundavam bibliotecas, criavam distribuidoras de livros, alguns viviam em comunas (espaços de convivência coletiva) autogestionárias, planejavam boicotes, atuavam com outros grupos políticos (não necessariamente anarquistas, desde que tivessem uma postura apartidária), procuravam atuar em parceria com diferentes coletivos anarcopunks e anarquistas de forma federativa e tinham, de fato, um aspecto de célula política, ao ponto de até aceitarem como militantes, dentro de seus próprios coletivos, pessoas que não eram punks, mas que desenvolviam uma militância anarquista. Lógico, deixando bem frisado aqui, nada disso era perfeito. Existiam vários equívocos, principalmente no início, mas o objetivo principal (para mim, o que fez toda a diferença) era a iniciativa de ter uma atuação política.

Para se comprovar essa diferença entre a cena punk e a cena anarcopunk, é só ver os zines da época. Num zine anarcopunk, se havia uma entrevista com uma banda e essa entrevista tinha, por exemplo, dez perguntas, com certeza oito delas remontavam a questões políticas dentro e fora da cena, enquanto apenas duas abordavam a história da banda, formação, próximas apresentações/lançamentos e demais questões musicais. E vários zines anarcopunks foram publicados somente com matérias políticas, textos políticos, sem falar de música, sem resenhas de som e, às vezes, até sem referência alguma à cena punk ou anarcopunk. A principal preocupação era o debate político. E isso se refletia também nas apresentações dos conjuntos anarcopunks, que, antes de tocar um som, faziam um discurso explicando a letra do som ou a ideia defendida pelo grupo.

ESPETANDO O CABELO NA CASA DE WILLIAM & WELLINGHTON. FOTO: MARIA HELENA/ARQUIVO PESSOAL

Ivan Ribeiro: No dia 26 de dezembro de 86, num rolê na Praça Roosevelt junto com um compa, fomos atacados pela Funeral Punk. Fomos roubados e espancados. Tive uma perfuração no pescoço e outra no ombro, o nariz quebrado e a jaqueta roubada. Fui pra casa, do Centro até o Bom Retiro, a pé. Meu amigo conseguiu correr pro outro lado. Com a camiseta toda ensanguentada, fui embora puto da vida, pensando “Porra, se isso é ser punk, então eu não sou punk. Vão tudo se foder!”. Fiquei assim durante um tempo, evitei os rolês no Centro. Passado o trauma e a dor, eu fui me recuperando. Continuei na cena punk, evitando lugares de risco para alguém que, sendo punk, não andava em gangues. Mantinha os contatos com movimentos anarquistas e, também, com punks, do Subúrbio, da City, circulando em meio a todos sem participar efetivamente de nenhuma banca. Na condição de punk e anarquista, eu propunha ações em conjunto com os punks das gangues. Realizávamos, em janeiro, o evento Anarquia, Arte & Poesia, no qual, à Praça Ramos, levávamos poesia e desenhos em varais literários e artísticos e passávamos o dia dialogando com a população. O evento acontecia ao longo dos quatro sábados do mês.

Depois, passamos a organizar o Ciclo Antimilitarista, também na Ramos, ao longo de quatro sábados, discutindo violência policial, ditadura, luta anti-nuclear. Nessa época, misturava-se o pessoal da COB, do CCS, da Juventude Libertária, Punks do Subúrbio e da City. Logo, nós não tomamos contato com a vertente anarcopunk, nós criamos essa vertente. Tem um panfleto antológico dos Punks do Subúrbio, chamado “Movimento Punk em Busca do Anarquismo”, feito pelo amigo Birimba. Nele, é externada a busca do punk pelo anarquismo. Em 87, no 7 de setembro, ocorreu uma brutal repressão à passeata antimilitarista. Houve muitas prisões e torturas aos punks. Na sequência da repressão, fui na Galeria do Rock procurar o pessoal que tinha sofrido a repressão. Creio que, naquele momento, durante uma reunião em pé na Galeria do Rock, nascia em Sampa o anarco-punk. Foi quando nós, anarquistas, procuramos os Punks do Subúrbio para propor união e parceria.

Nessa época, eu, que já estava com um pé no punk e outro no anarquismo, por meio da COB trouxe um companheiro da CNT (Confederação Nacional do Trabalho) da França, o Jean Gabriel, ao Brasil. Ele era anarcopunk nos moldes que estávamos caminhando aqui no Brasil. Nesse período, entre 1988-89, eu fazia viagens constantes ao Rio de Janeiro, a Curitiba e outras localidades, fortalecendo a ideia da fusão punk e anarquista. No nordeste, a coisa também estava acontecendo. Lembro que nessa época eu comentei com um compa punk a ideia de criarmos o anarcopunk e ele desdenhou, dizendo que não precisávamos criar novas nomenclaturas, pois já existiam muitas. Sim, nomenclaturas existiam, mas na forma de gangues punks regionalistas, muitas delas resistentes de verdade, mas com muitas contradições. A ideia era efetivamente alicerçamos a cultura do punk com a ideologia anarquista. Politizar a cena. Aliar a estética punk, a transgressão e sua radicalidade, com o anarquismo. Esta foi a ideia geradora do anarcopunk.

ARQUIVO DO CLÁSSICO FANZINE UNITED FORCES. IMAGEM CEDIDA POR MARCELO R. BATISTA

Katy Fon: Eu frequentava um bar no Bixiga chamado Chopp Hause, uma espelunca tão fedida e horrível que até hoje eu me pergunto como tinha coragem de frequentar. Um dia nesse bar, já muito chapada, acabei apanhando de um grupo de carecas. Até hoje não sei porque apanhei, mas foi isso que me levou a procurar o grupo inimigo daquela gente. Fui procurar os punks e acabei conhecendo os punks da ZN, que era onde eu morava. Era o pessoal da Reformatório Punk, e uns punks da sul, Kaos Punk. Andei um bom tempo com eles.

Conheci o punk através das gangues, a gente saía todo final de semana para ir em shows, tretar com careca ou outras gangues e ficar chapada. Mas tudo isso começou a me incomodar. Venho de uma família de ex-presos políticos militantes. Meus pais sempre estiveram envolvidos com política e eu cresci nesse universo. Me lembro do meu pai me carregando para comícios das Diretas, tenho fotos na prisão, quando íamos visitar meu tio (foi um dos últimos a sair da cadeia, na pós-anistia), e meus pais sempre me contaram das histórias de prisão, tortura e exílio. Então o mundo punk das tretas, drogas e bebidas começou a se mostrar muito pequeno. Um dia, no lançamento de um livro chamado Massacre, do padre Silvano Sabatini, conheci o Alex, da Comuna Golai Polé. Conversamos, e achei o máximo um punk preocupado com questões indígenas, que era o tema do livro. Após esse encontro conheci a Comuna Goulai Polé, os anarcopunks, e, quando vi, já estava envolvida com as pessoas e algumas atividades.

Nos outros rolês, já estava farta de determinados comportamentos e posicionamentos de alguns indivíduos. Coisas ruins como homofobia, ganguismo, machismo, sexismo, e uma certa “amizade” com alguns skins. Eu realmente pegava mal com isso. No anarcopunk não rolavam essas coisas, muito pelo contrário, o pessoal tinha um posicionamento muito firme. A questão do combate ao racismo, à homofobia, o fato de as meninas serem muito articuladas. Comecei a tomar conhecimento de autoras, feminismo, a aprender muito com algumas pessoas, gente que respeito e por quem tenho muito carinho. Que me ensinaram com humildade, sem cobranças, sem arrogância. Maria, Ivan, Diego Duenhas, Alex da Comuna, e, mais tarde, Estilou, Naíra, Kelly. Mesmo existindo uma certa treta entre essas pessoas, que era da Comuna e da Casa da Esquina. A primeira, formada por um pessoal mais politizado, do MAP e tal; a segunda, uma galera de estética mais caótica, mas muito interessante do punk, mais niilista, que me seduziu por um tempo. São pessoas que me cativaram e das quais sinto falta até hoje. Isso tudo que o anarcopunk me apresentou eu nunca vivenciei no meio das gangues.

Leia a segunda parte da História Oral do Anarcopunk no link abaixo:

 

 

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Fonte

Por Eduardo Ribeiro

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