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“Fui torturado e obrigado a dizer que matei meus amigos”, afirma estudante de Ayotzinapa

Geraldo Torres Perez era colega dos 43 estudantes que desapareceram após serem atacados pela polícia no México
“Fui torturado e obrigado a dizer que matei meus amigos”, afirma estudante de Ayotzinapa
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“Fui torturado e obrigado a dizer que matei meus amigos”, afirma estudante de Ayotzinapa

 Geraldo Torres Perez era colega dos 43 estudantes que desapareceram após serem atacados pela polícia no México, no ano passado, e presenciou o episódio; ele foi um dos participantes do primeiro dia do Colóquio Internacional de Direitos Humanos, realizado nesta semana em São Paulo; confira como foram os debates 

Até hoje, os 43 estudantes da cidade de Ayotzinapa que foram atacados pela polícia no ano passado não apareceram. Em sua participação no XIV Colóquio Internacional de Direitos Humanos, que acontece nesta semana em São Paulo, a ativista mexicana Maria Luiza Aguillar revelou um dado grave: 60% das pessoas no México vivem na pobreza e, de acordo com os registros oficiais, há 26 mil cidadãos desaparecidos no país.

“Forças policiais se confundem com as forças do crime organizado”, disse a ativista, contando que a violência generalizada se dá por conta justamente da política de segurança do governo para “combater” o tráfico de drogas. No país, há inúmeros cartéis que atuam com o aval da polícia e dificilmente há qualquer tipo de punição para os autores de violações.

Geraldo Torres presenciou de perto o episódio mais recente e notório que ilustra a violência generalizada no México: o desaparecimento dos 43 estudantes de Ayotzinapa, em setembro do ano passado, após protestos e confronto com a polícia local.

Torres estuda para ser professor na escola rural Raúl Isidro Burgos, a mesma dos estudantes que desapareceram. De acordo com o jovem, em 26 de setembro o grupo viajou para uma cidade vizinha para arrecadar fundos para a escola e fazer um protesto por melhorias na educação. No local, foram agredidos “verbalmente” pela polícia, que teria chamado reforços e começado o ataque. Apenas nesse primeiro confronto, seis estudantes morreram.

Testemunhas relatam ter visto uma série de alunos sendo conduzidos a viaturas policiais durante o conflito e, até hoje, não se sabe o paradeiro de nenhum deles. Torres, que conseguiu escapar do “sequestro”, conta, inclusive, que chegou a ser torturado. “Fui torturado e obrigado a dizer que matei meus amigos, dizer que a arma do crime era minha”, revelou.

Colóquio

Os protestos de rua que vêm acontecendo por todo o mundo, as demandas de cada uma dessas mobilizações, o papel do Estado em garantir o direito de manifestação e a relação desses fatores com o exercício da cidadania constituem o eixo central de discussões do evento. O Colóquio, que é organizado pela ONG Conectas, em parceria com outras três entidades – CELS (Centro de Estudios Legales y Sociales), da Argentina, LRC (Legal Resources Centre), da África do Sul, e a KontraS, da Indonésia – reunirá, até sexta-feira (29), dezenas de ativistas, acadêmicos e entidades ligadas à causa dos direitos humanos e aos principais levantes populares recentes.

“A rua é como um cenário de disputa, um mecanismo de direitos e contra o abuso do poder”, afirmou na abertura do encontro Gastón Chilier, do Centro de Estudios Legales y Sociales (CELS) da Argentina.

Além de Gastón, estavam presentes representantes das outras duas organizações que promoveram o evento e o secretário municipal de Direitos Humanos, Eduardo Suplicy. Eles expuseram as ideias do colóquio sob o consenso de que o mundo todo vive em plena era de levantes populares e que era preciso discutir as novas formas de mobilização e investigar de que maneira se dão as violações de direitos humanos nesse contexto.

“Vamos seguir os exemplos que, na História, foram vitoriosos no uso de formas pacíficas de manifestação”, disse Suplicy, citando como exemplo as mobilizações encampadas por Mahatma Gandhi, na Índia, e Martin Luther King Jr, nos Estados Unidos.

O ex-senador fez questão de expor aos convidados internacionais sua luta pelos direitos humanos por meio de iniciativas como a Renda Básica de Cidadania, mas lembrou também a dificuldade de se pautar agendas positivas no país no atual momento.

“O Brasil está passando por um momento difícil. Temos um Congresso Nacional com muitas pessoas conservadoras, pessoas que defendem, por exemplo, a redução da maioridade penal de 18 para 16 anos. Eu estou convicto que não se deve diminuir a idade penal”, criticou.

Como já é de praxe, Suplicy encerrou sua fala, bem como a mesa de abertura, cantando a música que ele considera o “hino” dos defensores dos direitos humanos: Blowin’ in the Wind, de Bob Dylan.

Os protestos e as violações pelo mundo

A primeira mesa de discussões do colóquio contou com a presença do jornalista brasileiro Bruno Torturra, que mediou a exposição dos depoimentos de nomes ligados a importantes mobilizações populares recentes. Nurcan Kaya, advogada turca, foi uma delas.

Kaya acompanhou de perto o protesto em defesa do Parque Gezi, em maio de 2013, que desencadeou em uma onda de manifestações por todo o país e que fez milhões de pessoas saírem às ruas durante meses contra o governo autoritário de Erdogan.

A advogada contou que, assim como houve no Brasil, no caso do aumento da tarifa do transporte público em 2013, na Turquia a defesa da pequena área verde se transformou em uma grande manifestação por mais democracia no país. Também refletindo o que houve em São Paulo e em outras cidades brasileiras em junho daquele ano, os protestos turcos ficaram cada vez maiores à medida em que a violência policial aumentava.

“O movimento não foi apenas pela defesa do parque, mas um chamado para que o governo nos respeitasse”, afirmou, lembrando o conhecido “Não é só pelos 20 centavos” dos brasileiros.

A manifestação popular, as motivações e a violência policial não são as únicas similaridades entre os dois países. Kaya revelou ainda que a maior parte do spray de pimenta utilizado pelas forças de segurança da Turquia contra os manifestantes eram comprados do Brasil.

Quem também fez um paralelo com a realidade brasileira foi o americano Phillip Agnew, membro do movimento Black Lives Matter, dos Estados Unidos. Formado basicamente por jovens negros e negras, o movimento tem como objetivo discutir e protestar contra o racismo da polícia norte-americana por conta dos constantes assassinatos de jovens negros desarmados.

“É bem parecido com o que acontece no Brasil. No nosso país, a vida dos negros sempre valeu menos que a vida dos demais”, disse.

As últimas mortes de jovens negros que foram alvos da violência policial ganharam notoriedade principalmente depois das intensas manifestações promovidas por afro-americanos em Fergunson e Baltimore. De acordo com Agnew, a mobilização vai além das mortes. Elas são, segundo ele, resultado de “anos de desemprego e falta de oportunidades”.

“O Black Lives Matter é um movimento de resistência. Eles nos exploram e nos matam e não vamos ficar calados”.

A mesa foi composta também pelo  ativista egípcio Karim Ennarah, da ONG International Network of Civil Libertie. Ele, recentemente, participou da elaboração de um relatório que trata justamente da violência policial em manifestações ao redor do mundo.

“Uma das tendências apontadas é a percepção, por parte dos estados, de que os protestos são uma ameaça”, disse.

 

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 Geraldo Torres Perez era colega dos 43 estudantes que desapareceram após serem atacados pela polícia no México, no ano passado, e presenciou o episódio; ele foi um dos participantes do primeiro dia do Colóquio Internacional de Direitos Humanos, realizado nesta semana em São Paulo; confira como foram os debates 

Até hoje, os 43 estudantes da cidade de Ayotzinapa que foram atacados pela polícia no ano passado não apareceram. Em sua participação no XIV Colóquio Internacional de Direitos Humanos, que acontece nesta semana em São Paulo, a ativista mexicana Maria Luiza Aguillar revelou um dado grave: 60% das pessoas no México vivem na pobreza e, de acordo com os registros oficiais, há 26 mil cidadãos desaparecidos no país.

“Forças policiais se confundem com as forças do crime organizado”, disse a ativista, contando que a violência generalizada se dá por conta justamente da política de segurança do governo para “combater” o tráfico de drogas. No país, há inúmeros cartéis que atuam com o aval da polícia e dificilmente há qualquer tipo de punição para os autores de violações.

Geraldo Torres presenciou de perto o episódio mais recente e notório que ilustra a violência generalizada no México: o desaparecimento dos 43 estudantes de Ayotzinapa, em setembro do ano passado, após protestos e confronto com a polícia local.

Torres estuda para ser professor na escola rural Raúl Isidro Burgos, a mesma dos estudantes que desapareceram. De acordo com o jovem, em 26 de setembro o grupo viajou para uma cidade vizinha para arrecadar fundos para a escola e fazer um protesto por melhorias na educação. No local, foram agredidos “verbalmente” pela polícia, que teria chamado reforços e começado o ataque. Apenas nesse primeiro confronto, seis estudantes morreram.

Testemunhas relatam ter visto uma série de alunos sendo conduzidos a viaturas policiais durante o conflito e, até hoje, não se sabe o paradeiro de nenhum deles. Torres, que conseguiu escapar do “sequestro”, conta, inclusive, que chegou a ser torturado. “Fui torturado e obrigado a dizer que matei meus amigos, dizer que a arma do crime era minha”, revelou.

Colóquio

Os protestos de rua que vêm acontecendo por todo o mundo, as demandas de cada uma dessas mobilizações, o papel do Estado em garantir o direito de manifestação e a relação desses fatores com o exercício da cidadania constituem o eixo central de discussões do evento. O Colóquio, que é organizado pela ONG Conectas, em parceria com outras três entidades – CELS (Centro de Estudios Legales y Sociales), da Argentina, LRC (Legal Resources Centre), da África do Sul, e a KontraS, da Indonésia – reunirá, até sexta-feira (29), dezenas de ativistas, acadêmicos e entidades ligadas à causa dos direitos humanos e aos principais levantes populares recentes.

“A rua é como um cenário de disputa, um mecanismo de direitos e contra o abuso do poder”, afirmou na abertura do encontro Gastón Chilier, do Centro de Estudios Legales y Sociales (CELS) da Argentina.

Além de Gastón, estavam presentes representantes das outras duas organizações que promoveram o evento e o secretário municipal de Direitos Humanos, Eduardo Suplicy. Eles expuseram as ideias do colóquio sob o consenso de que o mundo todo vive em plena era de levantes populares e que era preciso discutir as novas formas de mobilização e investigar de que maneira se dão as violações de direitos humanos nesse contexto.

“Vamos seguir os exemplos que, na História, foram vitoriosos no uso de formas pacíficas de manifestação”, disse Suplicy, citando como exemplo as mobilizações encampadas por Mahatma Gandhi, na Índia, e Martin Luther King Jr, nos Estados Unidos.

O ex-senador fez questão de expor aos convidados internacionais sua luta pelos direitos humanos por meio de iniciativas como a Renda Básica de Cidadania, mas lembrou também a dificuldade de se pautar agendas positivas no país no atual momento.

“O Brasil está passando por um momento difícil. Temos um Congresso Nacional com muitas pessoas conservadoras, pessoas que defendem, por exemplo, a redução da maioridade penal de 18 para 16 anos. Eu estou convicto que não se deve diminuir a idade penal”, criticou.

Como já é de praxe, Suplicy encerrou sua fala, bem como a mesa de abertura, cantando a música que ele considera o “hino” dos defensores dos direitos humanos: Blowin’ in the Wind, de Bob Dylan.

Os protestos e as violações pelo mundo

A primeira mesa de discussões do colóquio contou com a presença do jornalista brasileiro Bruno Torturra, que mediou a exposição dos depoimentos de nomes ligados a importantes mobilizações populares recentes. Nurcan Kaya, advogada turca, foi uma delas.

Kaya acompanhou de perto o protesto em defesa do Parque Gezi, em maio de 2013, que desencadeou em uma onda de manifestações por todo o país e que fez milhões de pessoas saírem às ruas durante meses contra o governo autoritário de Erdogan.

A advogada contou que, assim como houve no Brasil, no caso do aumento da tarifa do transporte público em 2013, na Turquia a defesa da pequena área verde se transformou em uma grande manifestação por mais democracia no país. Também refletindo o que houve em São Paulo e em outras cidades brasileiras em junho daquele ano, os protestos turcos ficaram cada vez maiores à medida em que a violência policial aumentava.

“O movimento não foi apenas pela defesa do parque, mas um chamado para que o governo nos respeitasse”, afirmou, lembrando o conhecido “Não é só pelos 20 centavos” dos brasileiros.

A manifestação popular, as motivações e a violência policial não são as únicas similaridades entre os dois países. Kaya revelou ainda que a maior parte do spray de pimenta utilizado pelas forças de segurança da Turquia contra os manifestantes eram comprados do Brasil.

Quem também fez um paralelo com a realidade brasileira foi o americano Phillip Agnew, membro do movimento Black Lives Matter, dos Estados Unidos. Formado basicamente por jovens negros e negras, o movimento tem como objetivo discutir e protestar contra o racismo da polícia norte-americana por conta dos constantes assassinatos de jovens negros desarmados.

“É bem parecido com o que acontece no Brasil. No nosso país, a vida dos negros sempre valeu menos que a vida dos demais”, disse.

As últimas mortes de jovens negros que foram alvos da violência policial ganharam notoriedade principalmente depois das intensas manifestações promovidas por afro-americanos em Fergunson e Baltimore. De acordo com Agnew, a mobilização vai além das mortes. Elas são, segundo ele, resultado de “anos de desemprego e falta de oportunidades”.

“O Black Lives Matter é um movimento de resistência. Eles nos exploram e nos matam e não vamos ficar calados”.

A mesa foi composta também pelo  ativista egípcio Karim Ennarah, da ONG International Network of Civil Libertie. Ele, recentemente, participou da elaboração de um relatório que trata justamente da violência policial em manifestações ao redor do mundo.

“Uma das tendências apontadas é a percepção, por parte dos estados, de que os protestos são uma ameaça”, disse.

 

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