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Fazenda disputada por tio de Dallagnol e madeireira teve camponeses assassinados

Segundo o Conselho de Direitos Humanos da ONU, foram cinco os casos na gleba em disputa; em 2016, a vítima foi Valdomiro Lorena
Fazenda disputada por tio de Dallagnol e madeireira teve camponeses assassinados
Foto principal: cemitério em Juara. (Reprodução)
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Fazenda disputada por tio de Dallagnol e madeireira teve camponeses assassinados

Por Leonardo Fuhrmann / Alceu Luís Castilho / DE OLHO NOS RURALISTAS

Segundo o Conselho de Direitos Humanos da ONU, foram cinco os casos na gleba em disputa; em 2016, a vítima foi Valdomiro Lorena; um dos suspeitos de ser o mandante, o madeireiro Walmor dos Santos, foi executado em janeiro

Em junho de 2016, o sem-terra Valdomiro Lopes de Lorena, 56 anos, foi assassinado a tiros na região das fazendas Acaraí e Matrinchã, na Gleba Japuranã, em Nova Bandeirantes (MT). Além dos sem-terra, as áreas são disputadas pela madeireira Juara – controlada por um grupo catarinense – e pelo advogado Xavier Leonidas Dallagnol, tio do procurador Deltan Dallagnol, coordenador da Operação Lava Jato em Curitiba.

Valdomiro Lorena morreu em terras disputadas por clãs. (Foto: HRD Memorial)

De Olho nos Ruralistas publica desde domingo uma série de reportagens sobre os latifúndios do Dallagnol no Mato Grosso. E sobre as investigações de irregularidades, desmatamento e favorecimento da família do procurador no noroeste do estado: “Desmatamento, disputa por terras, desapropriação ilegal: o que está por trás dos latifúndios dos Dallagnol na Amazônia?

No mesmo ataque que matou Lucena, Tiago Neves, na época com 22 anos, foi atingido por dois tiros. Ele sobreviveu. As investigações na época apontavam para dois homens, conhecidos como Pelego e Sapecado, como os principais suspeitos de terem efetuado os disparos.

Conhecido como Tié-Tié, Lucena era integrante do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST). Desde o início do assentamento na região, os irmãos Dallagnol incentivavam a organização dos camponeses em associações autônomas como forma de evitar o crescimento do MST na região.

ONU REGISTROU ESCALADA DA VIOLÊNCIA NA REGIÃO

Não há informações nas investigações policiais sobre quem teria sido o mandante do assassinato do camponês. Organizações de direitos humanos apontaram Walmor Gonçalves dos Santos, sócio da madeireira Juara, como principal suspeito. Confiram a descrição feita pelo Universal Periodic Review (UPR), um relatório do Conselho de Direitos Humanos da Organização das Nações Unidas (ONU), sobre a morte de Lorena:

– Assassinado a tiros por pistoleiros. Suspeita-se que a serviço de Walmor Gonçalves dos Santos, proprietário da Madeireira Juara Ltda, que demanda a posse das Fazendas Acaraí e Matrinchã/Gleba Japuranã, em Nova Bandeirantes-MT. Valdomiro é a quinta vítima fatal na área, palco de conflito há onze anos, tempo em que cerca de 43 famílias lutam para ter direito à terra onde vivem e produzem. Os suspeitos do homicídio, identificados apenas por Pelego e Sapecado, são procurados pela polícia. Um outro sem terra, Thiago Neves, de 22 anos, ficou ferido com 2 tiros, mas não corre risco de morte.

O Conselho de Direitos Humanos da ONU tinha um motivo adicional para registrar o caso: em 2017, um relatório da Global Witness apontou o Brasil como país com o maior número de ativistas ambientais assassinados no ano anterior. Valdomiro Lorena estava entre os 49 executados.  Segundo a organização, o país respondeu por 25% do total de mortes naquele período. Mais da metade dos duzentos assassinatos ocorreu na América Latina.

Confira o trecho do informe de 2017 da ONU:


SÓCIO DA MADEIREIRA FOI ASSASSINADO EM JANEIRO

Conhecido como Walmor da Fuck, em referência ao sobrenome da família que controla a madeireira, Walmor Gonçalves dos Santos não chegou a ser denunciado formalmente, conforme o site da Transparência do Ministério Público do Mato Grosso. Santos era investigado por porte ilegal de armas em inquéritos de 2016 e 2017. No primeiro, no mesmo ano em que Lorena foi assassinado, ele chegou a ser preso em flagrante por porte ilegal de arma.

Em janeiro, aos 71 anos, Santos foi encontrado morto numa chácara de sua propriedade em Juara, município vizinho de Nova Bandeirantes – a gleba em disputa fica na fronteira. Junto com ele foi assassinada sua secretária, Aparecida Luciano Nogueira, de 49 anos. Ambos foram baleados. As investigações iniciais da polícia descartaram a possibilidade de latrocínio, pois não foram levados objetos de valor nem dinheiro em espécie encontrado no local.

A madeireira Juara e Dallagnol disputam a propriedade das terras na Justiça e trocam acusações. Em um dos processos, em janeiro de 2018, a madeireira afirma que Xavier e a mulher, Maria das Graças Prestes, desrespeitam as decisões judiciais e destroem a vegetação da reserva legal, com “extração irregular de madeiras de todas as espécies”. É Maria das Graças que encabeça a principal ação dos Dallagnol por indenizações, para fins de reforma agrária.

Os dois lados já foram alvos de multas do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) por desmatamento irregular na área. Além da extração de madeira, a Juara também cria gado. A empresa tem outra propriedade com multa ambiental em Juara, a Fazenda Vale do Arinos. Juara e Xavier Dallagnol aparecem também lado a lado como réus em uma ação proposta pelo Ministério Público estadual do Mato Grosso, a partir de uma representação da Associação Comunitária Rural Matrinchã.

Santos era conhecido como Walmor da Fuck em referência à família de sócios dele na Juara, os catarinenses Marcelo Jacob Fuck, Niceto Oscar Fuck, Estevão Francisco Fuck, Fabio Nabor Fuck, Luiz Fernando Fuck e Márcia Tereza Fuck. A família é de Canoinhas (SC), onde atuam desde os anos 40 no setor madeireiro. Niceto e Santos eram os sócios responsáveis pela administração da madeireira.

TERRAS NA REGIÃO MOTIVARAM INDENIZAÇÕES MILIONÁRIAS

Fazenda de 2 mil hectares de Xavier Dallagnol em edital de reforma agrária. (Imagem: Reprodução)

A Gleba Japuranã é o foco principal das apurações sobre a família Dallagnol no Mato Grosso. Foi por terras ali localizadas que o procurador de Justiça aposentado Agenor Dallagnol, pai de Deltan, recebeu uma indenização de R$ 8,8 milhões, em 2016. Ninagin e Belchior Prestes Dallagnol, primos do coordenador da Operação Lava Jato em Curitiba, e a mãe deles, Maria das Graças Prestes, receberam indenizações milionárias no mesmo dia, no governo Michel Temer.

A indenização paga a Ninagin Dallagnol, filha de Xavier, foi uma das dez maiores despesas agrárias naquele ano. O Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) informou em maio que o processo de desapropriação e o pagamento de indenizações na área foram movidos por irregularidades cometidas por servidores públicos: “Incra diz que desapropriação de R$ 41 milhões no MT que beneficiou pai, tios e primos de Deltan Dallagnol foi ilegal“.

Dois tios de Deltan Dallagnol, o próprio Xavier e Leonar, conhecido como Tenente, também são acusados de loteamento ilegal. Tenente é acusado ainda de ter invadido terras na região. Advogado, Xavier defende acusados de grilagem com atuação em outras regiões do país.

A família Dallagnol recebeu 400 mil hectares na região onde hoje é o município durante a ditadura militar. A região é conhecida como Portal da Amazônia, por ser a região do Mato Grosso onde começa a área de floresta. Pelo alto nível de devastação da flora nos últimos anos, faz parte do chamado Arco do Desmatamento.

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Segundo o Conselho de Direitos Humanos da ONU, foram cinco os casos na gleba em disputa; em 2016, a vítima foi Valdomiro Lorena; um dos suspeitos de ser o mandante, o madeireiro Walmor dos Santos, foi executado em janeiro

Em junho de 2016, o sem-terra Valdomiro Lopes de Lorena, 56 anos, foi assassinado a tiros na região das fazendas Acaraí e Matrinchã, na Gleba Japuranã, em Nova Bandeirantes (MT). Além dos sem-terra, as áreas são disputadas pela madeireira Juara – controlada por um grupo catarinense – e pelo advogado Xavier Leonidas Dallagnol, tio do procurador Deltan Dallagnol, coordenador da Operação Lava Jato em Curitiba.

Valdomiro Lorena morreu em terras disputadas por clãs. (Foto: HRD Memorial)

De Olho nos Ruralistas publica desde domingo uma série de reportagens sobre os latifúndios do Dallagnol no Mato Grosso. E sobre as investigações de irregularidades, desmatamento e favorecimento da família do procurador no noroeste do estado: “Desmatamento, disputa por terras, desapropriação ilegal: o que está por trás dos latifúndios dos Dallagnol na Amazônia?

No mesmo ataque que matou Lucena, Tiago Neves, na época com 22 anos, foi atingido por dois tiros. Ele sobreviveu. As investigações na época apontavam para dois homens, conhecidos como Pelego e Sapecado, como os principais suspeitos de terem efetuado os disparos.

Conhecido como Tié-Tié, Lucena era integrante do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST). Desde o início do assentamento na região, os irmãos Dallagnol incentivavam a organização dos camponeses em associações autônomas como forma de evitar o crescimento do MST na região.

ONU REGISTROU ESCALADA DA VIOLÊNCIA NA REGIÃO

Não há informações nas investigações policiais sobre quem teria sido o mandante do assassinato do camponês. Organizações de direitos humanos apontaram Walmor Gonçalves dos Santos, sócio da madeireira Juara, como principal suspeito. Confiram a descrição feita pelo Universal Periodic Review (UPR), um relatório do Conselho de Direitos Humanos da Organização das Nações Unidas (ONU), sobre a morte de Lorena:

– Assassinado a tiros por pistoleiros. Suspeita-se que a serviço de Walmor Gonçalves dos Santos, proprietário da Madeireira Juara Ltda, que demanda a posse das Fazendas Acaraí e Matrinchã/Gleba Japuranã, em Nova Bandeirantes-MT. Valdomiro é a quinta vítima fatal na área, palco de conflito há onze anos, tempo em que cerca de 43 famílias lutam para ter direito à terra onde vivem e produzem. Os suspeitos do homicídio, identificados apenas por Pelego e Sapecado, são procurados pela polícia. Um outro sem terra, Thiago Neves, de 22 anos, ficou ferido com 2 tiros, mas não corre risco de morte.

O Conselho de Direitos Humanos da ONU tinha um motivo adicional para registrar o caso: em 2017, um relatório da Global Witness apontou o Brasil como país com o maior número de ativistas ambientais assassinados no ano anterior. Valdomiro Lorena estava entre os 49 executados.  Segundo a organização, o país respondeu por 25% do total de mortes naquele período. Mais da metade dos duzentos assassinatos ocorreu na América Latina.

Confira o trecho do informe de 2017 da ONU:


SÓCIO DA MADEIREIRA FOI ASSASSINADO EM JANEIRO

Conhecido como Walmor da Fuck, em referência ao sobrenome da família que controla a madeireira, Walmor Gonçalves dos Santos não chegou a ser denunciado formalmente, conforme o site da Transparência do Ministério Público do Mato Grosso. Santos era investigado por porte ilegal de armas em inquéritos de 2016 e 2017. No primeiro, no mesmo ano em que Lorena foi assassinado, ele chegou a ser preso em flagrante por porte ilegal de arma.

Em janeiro, aos 71 anos, Santos foi encontrado morto numa chácara de sua propriedade em Juara, município vizinho de Nova Bandeirantes – a gleba em disputa fica na fronteira. Junto com ele foi assassinada sua secretária, Aparecida Luciano Nogueira, de 49 anos. Ambos foram baleados. As investigações iniciais da polícia descartaram a possibilidade de latrocínio, pois não foram levados objetos de valor nem dinheiro em espécie encontrado no local.

A madeireira Juara e Dallagnol disputam a propriedade das terras na Justiça e trocam acusações. Em um dos processos, em janeiro de 2018, a madeireira afirma que Xavier e a mulher, Maria das Graças Prestes, desrespeitam as decisões judiciais e destroem a vegetação da reserva legal, com “extração irregular de madeiras de todas as espécies”. É Maria das Graças que encabeça a principal ação dos Dallagnol por indenizações, para fins de reforma agrária.

Os dois lados já foram alvos de multas do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) por desmatamento irregular na área. Além da extração de madeira, a Juara também cria gado. A empresa tem outra propriedade com multa ambiental em Juara, a Fazenda Vale do Arinos. Juara e Xavier Dallagnol aparecem também lado a lado como réus em uma ação proposta pelo Ministério Público estadual do Mato Grosso, a partir de uma representação da Associação Comunitária Rural Matrinchã.

Santos era conhecido como Walmor da Fuck em referência à família de sócios dele na Juara, os catarinenses Marcelo Jacob Fuck, Niceto Oscar Fuck, Estevão Francisco Fuck, Fabio Nabor Fuck, Luiz Fernando Fuck e Márcia Tereza Fuck. A família é de Canoinhas (SC), onde atuam desde os anos 40 no setor madeireiro. Niceto e Santos eram os sócios responsáveis pela administração da madeireira.

TERRAS NA REGIÃO MOTIVARAM INDENIZAÇÕES MILIONÁRIAS

Fazenda de 2 mil hectares de Xavier Dallagnol em edital de reforma agrária. (Imagem: Reprodução)

A Gleba Japuranã é o foco principal das apurações sobre a família Dallagnol no Mato Grosso. Foi por terras ali localizadas que o procurador de Justiça aposentado Agenor Dallagnol, pai de Deltan, recebeu uma indenização de R$ 8,8 milhões, em 2016. Ninagin e Belchior Prestes Dallagnol, primos do coordenador da Operação Lava Jato em Curitiba, e a mãe deles, Maria das Graças Prestes, receberam indenizações milionárias no mesmo dia, no governo Michel Temer.

A indenização paga a Ninagin Dallagnol, filha de Xavier, foi uma das dez maiores despesas agrárias naquele ano. O Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) informou em maio que o processo de desapropriação e o pagamento de indenizações na área foram movidos por irregularidades cometidas por servidores públicos: “Incra diz que desapropriação de R$ 41 milhões no MT que beneficiou pai, tios e primos de Deltan Dallagnol foi ilegal“.

Dois tios de Deltan Dallagnol, o próprio Xavier e Leonar, conhecido como Tenente, também são acusados de loteamento ilegal. Tenente é acusado ainda de ter invadido terras na região. Advogado, Xavier defende acusados de grilagem com atuação em outras regiões do país.

A família Dallagnol recebeu 400 mil hectares na região onde hoje é o município durante a ditadura militar. A região é conhecida como Portal da Amazônia, por ser a região do Mato Grosso onde começa a área de floresta. Pelo alto nível de devastação da flora nos últimos anos, faz parte do chamado Arco do Desmatamento.

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Por Leonardo Fuhrmann / Alceu Luís Castilho / DE OLHO NOS RURALISTAS

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