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A Não Violência é ineficiente

Poderia gastar muito tempo falando sobre as falhas da não violência. Contudo, pode ser mais proveitoso eu falar sobre os sucessos
A Não Violência é ineficiente
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A Não Violência é ineficiente

Poderia gastar muito tempo falando sobre as falhas da não violência. Contudo, pode ser mais proveitoso eu falar sobre os sucessos da não violência. Dificilmente o pacifismo seria atrativo aos seus defensores se sua ideologia não tivesse produzido vitórias históricas.

Exemplos clássicos são a independência da Índia do governo colonial britânico, alguns esforços contra a corrida das armas nucleares, o movimento dos direitos civis da década de 1960, e o movimento pela paz durante a guerra do Vietnã[1]. Embora ainda não tenham sido proclamados como vitórias, os protestos massivos de 2003 contra a invasão norte-americana no Iraque foram muito aplaudidos pelos ativistas não violentos.

Há um padrão na manipulação e deturpação da história que é evidente em cada uma das vitórias reivindicadas pelos ativistas não violentos. A posição pacifista quer que o sucesso seja atribuído somente às táticas pacifistas, enquanto o resto de nós acredita que a mudança vem de todo o espectro de táticas presentes em qualquer situação revolucionária, desde que sejam efetivamente implantadas.

Isso acontece porque nenhum grande conflito social possui uma uniformidade de táticas e ideologias, o que significa dizer que todos esses conflitos apresentam táticas pacifistas e definitivamente táticas não pacifistas. Mas os pacifistas precisam apagar a história que não concorda com eles ou, alternativamente, culpar suas falhas pela presença ao mesmo tempo de lutas violentas.

Na Índia, a história conta que o povo sob a liderança de Gandhi construiu um movimento massivo não violento durante décadas e envolveu-se em protestos, desobediência civil, boicotes econômicos, exemplares greves de fome e atos de não cooperação para quebrar com o imperialismo britânico. Eles sofreram massacres e responderam com um par de protestos, mas, em sua maioria, o movimento foi não violento e, depois de perseverar durante décadas, o povo indiano ganhou sua independência, fornecendo um marco inegável da vitória pacifista.

A história real é um pouco mais complicada, nela pressões violentas também influenciaram a decisão de retirada britânica. Os britânicos perderam a capacidade de manter o poder colonial após perderem milhões de tropas e uma porção de outros recursos durante as duas extremamente violentas guerras mundiais, nas quais a segunda, em especial, devastou a “terra mãe”.

As lutas armadas dos militantes árabes e judeus na Palestina de 1945 até 1948 enfraqueceram ainda mais o império britânico, e fizeram com que se constituísse uma ameaça clara, a de que os indianos pudessem, em massa, desistir da desobediência civil e partir para as armas se ignorados por muito tempo; esse fato não pode ser desconsiderado como um fator importante na decisão dos britânicos em abandonar a administração colonial direta.

Nos damos conta que esta ameaça é ainda mais direta quando entendemos que a história do pacifismo do movimento de independência da Índia é uma imagem seletiva e incompleta: a não violência não foi universal na Índia. A resistência ao colonialismo britânico teve tamanha militância que o método Gandhiano pode ser visto mais precisamente como uma forma dentre várias de resistência popular.

Como parte de uma padrão universal perturbante, pacifistas apagaram essas outras formas de resistência e ajudaram a propagar a falsa história de que Gandhi e seus discípulos foram o único mastro e leme da resistência indiana. Ignoraram importantes lideranças da militância, como Chandrasekhar Azad, quem combateu na luta armada contra os colonialistas britânicos, e revolucionários como Bhagat Singh, quem ganhou um apoio massivo pelas bombas e assassinatos como parte da luta para alcançar a “derrocada tanto do capitalismo estrangeiro, como do indiano”. A história pacifista da luta indiana não pode fazer sentido algum a partir do fato de que Subhas Chandra Bose, o candidato militante, foi duas vezes eleito presidente do Congresso Nacional Indiano, em 1938 e 1939.

Enquanto Gandhi foi, talvez, a figura mais singularmente influente e popular da luta pela independência da Índia, a posição de liderança que ele assumiu nem sempre satisfez o apoio consistente das massas. Gandhi perdeu muito apoio dos indianos quando “pediu para cancelar o movimento” em meio aos protestos de 1922. Quando mais tarde foi preso pelos britânicos, “não se levantou qualquer onda de protestos na Índia por sua prisão”.

É significativo que a história lembre de Gandhi sobre todos os outros não porque ele representou a voz unânime da Índia, mas por causa de toda a atenção e notoriedade que recebeu da imprensa britânica por ter sido incluído em importantes negociações com o governo colonial britânico. Quando lembramos que a história é escrita pelos vencedores, outro estrato do mito da independência indiana acaba se revelando.

O aspecto mais triste da reivindicação pacifista de que a independência da Índia é uma vitória da não violência é que essa reivindicação atua de forma direta na fabricação histórica realizada pelos interesses da supremacia branca dos Estados imperialistas que colonizaram o sul do mundo. O movimento de libertação da Índia fracassou. Os britânicos não foram forçados a abandonar a Índia. Antes, eles escolheram transferir o território de um controle colonial direto para um controle neocolonial.

Que tipo de vitória permite que o lado perdedor dite o tempo e a maneira como o lado vitorioso ascenderá ao governo? Os britânicos redigiram a nova constituição e entregaram o poder aos seus sucessores, escolhidos a dedo. Eles alimentaram as chamas do separatismo étnico e religioso para que a Índia se dividisse contra si mesma, fazendo com que ficasse privada de alcançar paz e prosperidade, e dependesse de ajuda militar e de outros recursos dos estados euro/americanos.

A Índia continua sendo explorada pelas corporações euro/americanas (apesar de muitas corporações indianas novas, na maioria subsidiárias, terem se juntado à pilhagem), e continua provendo recursos e mercado para os estados imperialistas. Em vários sentidos a pobreza de seu povo se aprofundou e a exploração se tornou mais eficiente. A independência do controle colonial deu à Índia maior autonomia em algumas áreas, e certamente permitiu que um punhado de indianos se sentasse em algumas cadeiras do poder, mas a exploração e a mercantilização dos bens comuns se aprofundaram.

Além disso, a Índia perdeu a oportunidade clara de uma significativa libertação de um opressor estrangeiro facilmente reconhecível. Qualquer movimento de libertação teria agora que lutar contra as dinâmicas confusas do nacionalismo e das rivalidades étnico/religiosas para abolir um capitalismo e um governo que estão muito mais desenvolvidos. Fazendo um balanço geral, o movimento de independência provou ter fracassado.

A reivindicação de uma vitória pacifista na limitação da corrida armamentista nuclear é um pouco bizarra. Novamente, o movimento não foi exclusivamente não violento: incluiu grupos que realizaram uma série de atentados e outros atos de sabotagem ou ainda guerras de guerrilha.

E, novamente, a vitória é duvidosa. Os muito ignorados tratados de não proliferação só aconteceram depois da corrida armamentista ter sido ganha, com a incontestável hegemonia dos Estados Unidos na posse de mais armas nucleares do que até mesmo seria prático ou útil. E parece ser claro que a proliferação continua enquanto for preciso, atualmente, na forma de um desenvolvimento tático nuclear e uma nova onda de propostas para instalações nucleares.

De fato, a questão parece ter sido posta mais como uma questão de política interna dentro do próprio governo do que como um conflito entre o governo e um movimento social. Chernobyl e a possibilidade de outras tantas catástrofes nos Estados Unidos mostraram que a energia nuclear (um componente necessário para o desenvolvimento de armas nucleares) era algo incômodo, e não é preciso um manifestante para questionar a utilidade, até mesmo para um governo determinado a conquistar o mundo, desviando assombrosos recursos para a proliferação nuclear quando já possuía bombas suficientes para explodir o planeta inteiro, e cada guerra e ação encoberta desde 1945 foi combatida com outras tecnologias.

O movimento dos direitos civis nos Estados Unidos é um dos mais importantes episódios da história pacifista. Por todo o mundo, pessoas o veem como um exemplo de uma vitória não violenta. Mas, como em outros exemplos que discutimos aqui, não foi nem vitorioso, nem não violento. O movimento foi bem sucedido em acabar com a segregação de direito e com a expansão da minúscula pequena-burguesia negra, mas essas não eram as únicas demandas da maioria dos participantes do movimento.

Eles queriam total equidade política e econômica, e muitos também queriam a libertação negra na forma de uma nacionalismo negro, ou intercomunalismo negro, ou alguma outra independência do imperialismo branco. Nenhuma dessas demandas foram atendidas – nem equidade e nem, obviamente, libertação.

Pessoas que não são brancas continuam tendo uma renda média menor, piores acessos à habitação e aos tratamentos de saúde, e uma saúde pior do que as pessoas brancas. Segregação de fato ainda existe. Equidade política é outra coisa que também está faltando. Milhões de votantes, a maioria deles negro, são destituídos do direito de votar quando é conveniente para os interesses reinantes, e só houve quatro senadores negros desde a Reconstrução.

Outras raças também ficaram sem os frutos míticos dos direitos civis. Imigrantes latinos e asiáticos são especialmente vulneráveis a abusos, deportação, negação de serviços sociais aos quais eles pagam impostos, e a trabalhos tóxicos e exaustivos em fábricas de trabalho escravo ou ainda como trabalhadores rurais migrantes.

Muçulmanos e árabes estão sofrendo o embate da repressão pós-11 de Setembro, enquanto uma sociedade que define a si mesma como “cega-para-cor” nem sequer percebe sua hipocrisia. Nativos são mantidos tão abaixo na ladeira socioeconômica, como se para permanecerem invisíveis, exceto para as ocasionais manifestações simbólicas do multiculturalismo norte-americano – o mascote esportivo estereotipado ou a boneca hula-girl, que obscurece a realidade atual dos povos indígenas.

A projeção comum (primeiramente pelos progressistas brancos, pacifistas, educadores, historiadores, e oficiais do governo) é que o movimento contra a opressão racial nos Estados Unidos foi primariamente não violento. Ao contrário, apesar de grupos pacifistas como a Conferência das Lideranças Critãs Sulinas (SCLC), de Martin Luther King Jr., possuírem considerável influência e poder, o apoio popular dentro do movimento, especialmente entre pessoas negras e pobres, gravitou crescentemente em torno de grupos revolucionários como o Partido dos Panteras Negras (Black Panther Party).

De acordo com uma pesquisa (Harris, 1970), 66% dos afro-americanos disseram que as atividades do Partido dos Panteras Negras lhes deram orgulho, e 43% disse que o partido representava seu próprio ponto de vista. De fato, lutas armadas sempre foram uma parte importante da resistência dos negros contra a supremacia branca.

Mumia Abu-Jamal marcadamente documenta essa história em seu livro de 2004, We Want Freedom (Nós Queremos Liberdade). Ele escreve: As raízes da resistência armada são profundas na história afro-americana. Somente aqueles que ignoram este fato enxergam o Partido dos Panteras Negras de alguma forma estrangeiro a nossa herança histórica em comum.

Na realidade, os segmentos não violentos não podem ser destilados e separados das partes revolucionárias do movimento (apesar de seguidamente existir entre eles, encorajado pelo governo, alienação e animosidade). Os pacifistas, ativistas negros de classe-média, inclusive King, conseguiram muito de seu poder do espectro da resistência negra e da presença de revolucionários negros armados.

Na primavera de 1963, a campanha em Birmingham de Martin Luther King Jr. parecia uma repetição da ação funesta e falha de Albany, Georgia (onde uma campanha de 9 meses de desobediência civil, em 1961, demonstrou a fraqueza dos manifestantes não violentos contra um governo, com prisões que pareciam não ter fim, e onde, em 24 de Julho de 1962, tumultos juvenis tomaram quarteirões inteiros durante uma noite e forçaram a polícia a se retirar dos guetos, demonstrando que um ano após a campanha não violenta, a população negra de Albany ainda lutava contra o racismo, mas havia perdido sua preferência pela não violência).

No entanto, no dia sete de maio, em Birmingham, após uma violência policial contínua, três mil negros e negras começaram a contra-atacar, jogando garrafas e pedras na polícia. Dois dias depois, Birmingham (alçada até então como um inflexível bastão de segregação) concordou em deixar de segregar as lojas do centro, e o presidente Kennedy apoiou o acordo com garantias federais.

No dia seguinte, depois de pessoas da supremacia branca explodirem uma casa e um comércio negros, milhares de negros foram às ruas novamente, dominando uma área de nove quarteirões, destruindo carros de polícia, ferindo diversos policiais (incluindo o inspetor chefe), e queimando comércios de brancos.

Um mês e um dia depois, o presidente Kennedy chamou o Congresso para passar o decreto dos Direitos Civis, terminando com uma estratégia de vários anos de retardo do movimento por direitos civis. Talvez a maioria das limitadas, senão vazias, vitórias do movimento por direitos civis veio quando a população negra demonstrou que não ficaria pacífica para sempre. Frente às duas alternativas, a estrutura de poder dos brancos escolheu negociar com os pacifistas, e vimos os resultados.

A afirmação que o movimento pacifista estadunidense acabou com a guerra contra o Vietnã possui o usual conjunto de falhas. As críticas foram bem feitas por Ward Churchill e outros, então somente irei resumi-las.

Os ativistas pacifistas ignoram, com uma imperdoável hipocrisia, que três a cinco milhões de indochineses morreram na luta contra o exército estadunidense; que milhares de tropas americanas foram mortas e outras milhares feridas; que outras tropas desmoralizadas pelo derramamento de sangue tornaram-se extremamente ineficazes e revoltosas; e que os Estados Unidos estavam perdendo capital político (e tornando-se fiscalmente falidos) a um ponto em que os políticos pró-guerra começaram a pedir por uma retirada estratégica (especialmente depois que a Ofensiva do Tet provou que a guerra era “invencível”, como nas palavras de muitos daquele tempo).

O governo dos Estados Unidos não foi forçado a retirar-se pelos protestos pacíficos – ele foi derrotado política e militarmente. Como uma evidência disto, Churchill cita a vitória do republicano Richard Nixon, e a falta de até mesmo um candidato antiguerra no Partido Democrata, em 1968, no auge do movimento antiguerra. Poderia-se acrescentar a isso a reeleição de Nixon em 1972, após quatro anos de intensificação do genocídio, para demonstrar a fraqueza do movimento pacifista em intervir nas decisões do poder.

De fato, o movimento pacifista do princípio dissolveu-se junto à retirada das tropas estadunidenses (finalizada em 1973). O movimento foi menos receptivo para aceitar o fato de que a maior campanha de bombardeio jamais vista na história, que mirava civis, se intensificou após a retirada das tropas, ou que continuou a ocupação no Vietnã do Sul através de uma ditadura militar financiada e treinada pelos Estados Unidos.

Em outras palavras, o movimento se retirou (e recompensou Nixon com uma reeleição) uma vez que americanos, e não vietnamitas, estavam longe do perigo. O movimento pacifista americano falhou em trazer a paz. O imperialismo norte-americano continuou imbatível, e, apesar de sua estratégia militar ter sido derrotada pelos vietnamitas, os EUA ainda assim cumpriram com seus objetivos políticos gerais em seu devido tempo, precisamente por causa do fracasso do movimento pacifista em realizar qualquer mudança interna.

Alguns pacifistas irão apontar para o enorme número de “objetores de consciência” que se recusaram a lutar, para salvar alguma aparência de vitória à não violência. Mas deveria ser óbvio que a proliferação de objetores e trapaceiros de alistamentos não pode redimir as táticas pacifistas.

Especialmente em uma tão militarizada sociedade, a possibilidade de soldados recusarem-se a lutar é proporcional às suas expectativas de enfrentar uma oposição violenta que os pode matar ou mutilar. Sem a resistência violenta dos vietnamitas, não teria havido qualquer necessidade para o alistamento, sem o alistamento, a autoconvencida resistência não violenta na América do Norte teria dificilmente existido.

De longe, foi mais significativo do que os passivos “objetores de consciência” foram as crescentes rebeliões, especialmente por negros, latinos, e tropas indígenas, dentro do exército. O plano intencional do governo estadunidense, em resposta às manifestações de negros, de pegar homens negros jovens e desempregados das ruas e colocá-los no exército, saiu pela culatra.

Os oficiais de Washington que visitaram as bases do exército se apavoraram com o desenvolvimento de uma cultura “militante negra” […] Surpresos, teriam que assistir como os oficiais colonizadores locais (brancos) e seriam forçados a devolver saudações aos Novos Africanos (soldados negros) dando-lhes o símbolo do “Poder” (punho levantado) […] Nixon teve que tirar as tropas do Vietnã rapidamente, ou arriscava perder seu exército.

Fragging, sabotagem, recusa ao combate, revoltas nas prisões militares, e ajudas ao inimigo, todas atividades dos soldados norte-americanos, contribuíram significantemente para a decisão do governo dos EUA de retirar as tropas terrestres. Como o Coronel Robert D. Heinl afirmou em Junho de 1971:

A cada indicador concebível, nosso exército que permanece no Vietnã está em um estado que se aproxima do colapso, com unidades individuais evitando ou tendo recusado o combate, matando seus oficiais e sargentos, conduzindo-se às drogas, e desmotivados quando ainda não rebeldes. A situação é quase tão séria no Vietnã como em qualquer outro lugar.

O pentágono estima que 3% dos oficiais e sargentos mortos no Vietnã de 1961 a 1972 sofreram fraggings por suas próprias tropas. Essa estimativa nem sequer leva em consideração mortes por tiro ou esfaqueamento. Em muitas instâncias, soldados de uma unidade juntavam seu dinheiro para recompensar o assassinato de um oficial impopular. Matthew Rinaldi identifica no exército uma “classe trabalhadora negra e latina”, que não se identificava com as “táticas-pacíficas-a-qualquer-custo” do movimento pelos direitos civis que havia chegado antes deles, como os maiores atores da resistência militante que mutilou o exército americano durante a Guerra do Vietnã.

Embora eles fossem menos significativos politicamente do que a resistência no exército em geral, atentados e outros atos de violência em protesto à guerra nos campi das universidades brancas, inclusive na maioria das universidades de elite, não devem ser ignorados em favor das justificativas pacifistas.

No ano escolar de 1969-70 (de setembro a maio), uma estimativa conservadora enumera 174 atentados antiguerra em campi e ao menos 70 atentados fora de campi universitários e outros ataques violentos mirando construções ROTC (Centro de Treinamento de Oficias Reservistas), construções governamentais, e prédios corporativos. Adicionalmente, 230 protestos ocorridos em campi universitários incluíram violência física, e 410 incluíram dano à propriedade.[28]

Concluindo, o que foi uma vitória muito limitada – a retirada das tropas terrestres após muitos anos de guerra – pode ser melhor atribuído a dois fatores: a vitoriosa e continuada resistência violenta vietnamita, a partir da qual os decisores políticos perceberam que não poderiam vencer; e à militante, e frequentemente letal, resistência das tropas terrestres norte-americanas, que foi causada pela desmoralização a partir da violência eficaz de seus inimigos e da difusão da política militante do movimento contemporâneo de libertação dos negros.

O movimento interno contra a guerra claramente preocupou os políticos norte-americanos[29], mas certamente não se tornou poderoso o suficiente para que possamos dizer que forçou o governo a fazer qualquer coisa, e, em qualquer caso, seus elementos mais fortes usaram protestos violentos, atentados, e destruição à propriedade.

Talvez confusos por sua própria história falsa do movimento pacifista durante a Guerra do Vietnã, organizadores pacifistas estadunidenses, no século 21, pareciam esperar uma repetição de uma vitória que nunca aconteceu em seus planos de parar a invasão do Iraque.

Em 15 de fevereiro de 2003, quando o governo dos EUA movia-se em direção à guerra contra o Iraque, “protestos no fim de semana do mundo inteiro por milhões de ativistas contra a guerra enviaram uma dura repreensão para Washington e seus aliados […] A sem precedentes onda de demonstrações […] embaçou ainda mais os planos de guerra dos EUA”, de acordo com um artigo na página da internet do grupo não violento e antiguerra United for Peace and Justice (Unidos pela Paz e pela Justiça).

O artigo, que se orgulha da “propagação massiva do sentimento pacifista”, continua o projeto e diz que a “Casa Branca […] parece ter ficado chocada com a resistência a seu chamado para uma ação militar rápida”. Foram os maiores protestos da história, excetuando-se algumas brigas menores, eles foram inteiramente não violentos, e os organizadores celebraram extensivamente sua tranquilidade e seu caráter massivo.

Alguns grupos, como o United for Peace and Justice, inclusive, sugeriram que os protestos poderiam evitar a guerra. É óbvio que eles estavam totalmente errados, e os protestos foram totalmente ineficazes. A invasão ocorreu como planejado, apesar de que milhares de pessoas nominalmente, pacificamente, e impotentemente opuseram-se a ela. O movimento contra a guerra não fez nada para mudar as relações de poder nos Estados Unidos. Bush recebeu capital político substancial por ter invadido o Iraque, e não se deparou com reação alguma até que o esforço da guerra e da ocupação começaram a aparecer – sinais de fracasso pela eficaz resistência armada do povo iraquiano. A tão chamada oposição nem sequer se manifestou no cenário político oficial. O único candidato antiguerra no Partido Democrata[31], Dennis Kucinich, jamais foi levado a sério como um concorrente, e ele e seus apoiadores eventualmente escondiam suas ideias para juntarem-se à plataforma de apoio do Partido Democrata para a ocupação do Iraque.

Um bom caso de estudo em relação à eficácia dos protestos não violentos pode ser visto no envolvimento da Espanha com a ocupação liderada pelos Estados Unidos. A Espanha, com 1300 tropas, foi uma das maiores sócias subalternas na Coalition of the Willing.

Mais de um milhão de espanhóis protestaram contra a invasão, e 80% da população espanhola dizia ser contrária a ela, mas seu comprometimento com a paz acabou aí – eles não fizeram nada para efetivamente evitar o apoio militar espanhol à invasão e à ocupação. Porque eles permaneceram passivos e não fizeram nada para desapoderar as lideranças, eles permaneceram tão impotentes quanto qualquer cidadão de qualquer democracia.

O primeiro-ministro espanhol Aznar não foi somente autorizado e capaz de ir à guerra, todas as previsões apontavam que ele ganharia a reeleição – antes dos atentados. Em 11 de março de 2004, apenas alguns dias antes da abertura das cabines de votação, múltiplas bombas plantadas por uma célula ligada à Al-Qaeda explodiram nas estações de trem de Madri, matando 191 pessoas e ferindo mais alguns milhares.

Diretamente por causa disso, Aznar e seu partido perderam as eleições, e os Socialistas, o maior partido com uma plataforma antiguerra, foram eleitos ao poder. A coalizão liderada pelos Estados Unidos encolheu com a saída das 1300 tropas espanholas, e, de novo, encolheu imediatamente depois que República Dominicana e Honduras também retiraram suas tropas. Enquanto milhões de ativistas pacíficos votavam nas ruas como boas ovelhas, uma pequena dezena de terroristas disposta a abater não combatentes foi capaz de causar a retirada de mais de mil tropas da ocupação.

As declarações e as ações das células afiliadas à Al-Qaeda não sugerem que eles queiram uma paz significativa no Iraque, nem demonstram alguma preocupação com o bem-estar dos iraquianos (os quais muitos foram por eles explodidos em pedaços), mas mostram alguma preocupação por uma visão particular de como a sociedade iraquiana deveria ser organizada: uma visão que é extremamente autoritária, patriarcal, e fundamentalista.

E, sem dúvida, o que foi possivelmente uma decisão fácil – de matar e ferir centenas de pessoas desarmadas –, embora tal ação possa ter parecido estrategicamente necessária, está conectada ao seu autoritarismo e brutalidade, e mais ainda à cultura intelectual da qual muitos terroristas derivam (apesar disso ser outro tópico).

A moralidade da situação se torna mais complicada quando comparada à campanha estadunidense massiva de bombardeio que matou, intencionalmente, centenas de milhares de civis na Alemanha e no Japão durante a II Guerra Mundial. Mesmo que essa campanha tenha sido muito mais brutal do que os atentados de Madri, geralmente ela é considerada aceitável.

A discrepância que podemos assumir entre condenar as pessoas que colocaram as bombas em Madri (fácil) e condenar os ainda mais sanguinários pilotos americanos (não tão fácil, talvez porque entre eles podemos achar nossos próprios parentes – meu avô, por exemplo) deveria nos fazer questionar se nossa condenação ao terrorismo realmente tem alguma coisa a ver com um respeito pela vida.

Como não estamos lutando por um mundo autoritário, ou um em que o sangue é derramado em conformidade com justificativas racionais calculadas, os atentados de Madri não representam um exemplo de ação, mas antes, um paradoxo importante. As pessoas que aderem a táticas pacíficas – que não provaram ser eficazes em terminar a guerra contra o Iraque – estão realmente mais preocupadas com a vida humana do que os terroristas de Madri?

Afinal, muito mais do que 191 civis iraquianos foram mortos pelas 1.300 tropas instaladas no país. Se alguém precisa morrer (e a invasão americana faz essa tragédia ser inevitável), cidadãos espanhóis possuem mais culpa do que iraquianos (assim como cidadãos alemães e japoneses têm mais culpa do que outras vítimas da II Guerra Mundial).

Até o momento, nenhuma alternativa ao terrorismo foi desenvolvida dentro – da barriga relativamente vulnerável – da Besta para substancialmente enfraquecer a ocupação. Por isso, a única resistência real está ocorrendo no Iraque, onde os EUA e seus aliados estão mais preparados para se encontrar com ela, ao grande custo das vidas das guerrilhas e dos não combatentes.

Isso para vermos o quanto vale as vitórias do pacifismo.

Também ajudaria a entender os fracassos do alcance dessas ideias um exemplo controverso mas necessário, o do Holocausto[34]. Em grande parte do “devorador” (como é chamado o Holocausto em Roma), a resistência militar não foi totalmente ausente, dessa forma, podemos medir a eficácia da resistência pacifista independentemente.

O Holocausto é também um dos poucos fenômenos em que a responsabilização das vítimas é vista corretamente como um suporte ou simpatia ao opressor, assim, as revoltas ocasionais em oposição ao Holocausto não podem ser usadas para justificar a repressão e o genocídio, como acontece em outros lugares quando pacifistas responsabilizam a violência das autoridades pela audácia dos oprimidos em tomar a ação direta militar contra essa autoridade.

Alguns pacifistas foram muito ousados ao usar exemplos de resistência aos Nazistas, como a desobediência civil levada pelos dinamarqueses, ao sugerir que a resistência não violenta pode funcionar até mesmo nas piores condições. É realmente necessário apontar que os dinamarqueses, enquanto arianos, enfrentaram uma série de consequências pela resistência um tanto diferentes do que as primeiras vítimas dos nazistas?

O Holocausto somente terminou pela combinada e esmagadora violência dos governos Aliados, que destruíram o Estado Nazista. Embora, para ser honesto, eles tenham se preocupado muito mais em redesenhar o mapa da Europa do que salvar vidas de cidadãos de Roma, judeus, gays, esquerdistas, prisioneiros de guerra soviéticos, e outros. Inclusive, soviéticos tenderam a “expurgar” prisioneiros de guerra resgatados, temendo que mesmo que eles não fossem culpados pela deserção ao renderem-se, seu contato com estrangeiros nos campos de concentração os tivesse contaminado ideologicamente.

As vítimas do Holocausto, entretanto, não foram completamente passivas. Um grande número delas agiu para salvar vidas e para sabotar a máquina mortal nazista. Yehuda Bauer, quem lida exclusivamente com as vítimas judias do Holocausto, documenta enfaticamente essa resistência. Até 1942, “rabinos e outras lideranças […] desaconselharam pegar em armas”, mas eles não aconselharam passividade, preferencialmente, “a resistência era não violenta”.

Claramente, não diminuiu o genocídio ou enfraqueceu os nazistas de nenhuma forma mensurável. No início de 1942, judeus começaram a resistir violentamente, apesar de ainda terem muitos exemplos de resistência não violenta. Em 1943, pessoas na Dinamarca ajudaram a maioria dos milhares de judeus do país a escapar para a neutra Suécia. De maneira semelhante, no mesmo ano, o governo, a Igreja, e o povo da Bulgária pararam a deportação de judeus de seu país.

Em ambos casos, os judeus resgatados foram, no fim das contas, protegidos por forças militares e mantidos seguros pelas fronteiras de um país que não estava sob ocupação direta germânica, em um momento em que a guerra começava a parecer sombria para os nazistas (por causa da violenta investida dos soviéticos, os nazistas temporariamente negligenciaram a pequena frustração de seus planos pela Suécia e pela Bulgária). Em 1941, os habitantes de um gueto em Vilnius, na Lituânia, conduziram uma sentada[38] massiva quando os nazistas e as autoridades locais se preparam para deportá-los. Esse ato de desobediência civil pode ter atrasado um pouco a deportação, mas falhou em salvar qualquer vida.

Alguns líderes dos Judenrats, os Conselhos Judeus estabelecidos pelos nazistas para governarem os guetos em complacência com suas ordens, apoiaram os nazistas em uma tentativa de não mudar o status quo, com a esperança de que o maior número possível de judeus ainda estivesse vivo ao final da guerra. (Esse é um bom exemplo porque muitos pacifistas nos EUA hoje também acreditam que se você está abalando o status quo ou causando conflitos, você está fazendo algo errado.)

Bauer escreve: “Ao final, a estratégia falhou, e aqueles que tentaram usá-la descobriram com horror que eles haviam se tornado cúmplices do plano nazista de assassinatos”. Outros membros dos Conselhos Judeus foram mais ousados, e recusaram abertamente a cooperar com os nazistas.

Em Lvov, na Polônia, o primeiro presidente do conselho recusou a cooperar, e foi devidamente morto e substituído. Como Bauer aponta, as substituições eram muito mais complacentes (embora até mesmo a obediência não os salvasse, uma vez que eles eram todos conduzidos aos campos de extermínio; no caso específico de Lvov, o substituto foi morto mesmo assim, apenas pela suspeita de resistência). Em Borszczow, na Polônia, o presidente do conselho se recusou a cumprir ordens nazistas, e foi enviado para o campo de extermínio de Belzec.

Outros membros dos conselhos usaram uma diversidade de táticas, e elas foram claramente mais eficientes. Em Kovno, na Lituânia, eles fingiram cumprir as ordens nazistas, mas eram secretamente parte da resistência. Eles, com sucesso, esconderam crianças que seriam deportadas e tiraram jovens dos guetos para que pudessem lutar junto aos partisans.

Na França, “ambas seções dos conselhos pertenciam à clandestinidade e estavam em contato constante com a resistência […] e contribuíram significativamente com os salvamentos da maioria dos judeus no país”. Mesmo onde eles não tomaram pessoalmente parte da resistência, eles multiplicaram imensamente sua efetividade ao apoiar aqueles que a faziam.

E também havia as guerrilhas urbanas e os partisans que lutaram violentamente contra os nazistas. Em abril e maio de 1943, judeus no gueto de Varsóvia levantaram-se com armas clandestinas, roubadas e feitas em casa. Setecentos homens e mulheres jovens lutaram por semanas, até a morte, imobilizando milhares de tropas nazistas e outros recursos necessários para o colapso da Frente Oriental.

Eles sabiam que seriam mortos sendo pacíficos ou não. Por rebelarem-se violentamente, viveram as últimas semanas de suas vidas em resistência e liberdade, e reduziram a máquina de guerra nazista. Outra rebelião armada eclodiu no gueto de Bialystok, na Polônia, em 16 de agosto de 1943, e continuou por semanas.

Guerrilhas urbanas, como um grupo composto por judeus sionistas e comunistas em Cracóvia, com sucesso, explodiram trens de suprimentos e ferrovias, sabotaram fábricas de guerra, e assassinaram oficiais do governo. Judeus e outros grupos partisans, em toda parte da Polônia, Tchecoslováquia, Belarus, Ucrânia, e dos países bálticos, também realizaram atos de sabotagem às linhas de abastecimento germânicas e lutaram contra as tropas da SS.

De acordo com Bauer, “No leste polonês, Lituânia, e na União Soviética ocidental, ao menos 15000 judeus partisans lutaram nas matas, e pelo menos 5000 judeus desarmados lá viveram, protegidos – todo ou parte do tempo – pelos combatentes”.

Na Polônia, um grupo de partisans liderado pelos irmãos Belksy salvou mais de 1200 homens, mulheres e crianças judeus, em parte por levar a cabo mortes por vingança contra aqueles que atuaram como delatores ou que indicavam os fugitivos.

Grupos semelhantes partisans na França e na Bélgica sabotaram a infraestrutura da guerra, assassinaram oficiais nazistas, e ajudaram pessoas a escapar dos campos de concentração. Um grupo de judeus comunistas na Bélgica descarrilhou um trem que levava pessoas para Auschwitz, e ajudou muitas centenas deles a escapar. Durante a rebelião no campo de concentração de Sobibor, em outubro de 1943, resistentes mataram vários oficiais nazistas e permitiram que 400 dos 600 presos escapassem. A maioria foi rapidamente morta, mas por volta de 60 deles sobreviveram e se juntaram aos partisans.

Dois dias depois da revolta, Sobibor foi fechada. Uma rebelião em Treblinka, em agosto de 1943, destruiu aquele campo de concentração, e ele não foi reconstruído. Os participantes de outra insurreição em Auschwitz, em outubro de 1944, destruíram um dos crematórios. Todas esses levantes violentos retardaram o Holocausto. Em comparação, táticas não violentas (e, dito isso, os governos Aliados, cujos bombardeiros poderiam ter facilmente alcançado Auschwitz e outros campos) fracassaram em destruir ou fechar qualquer campo de concentração antes do fim da guerra.

No Holocausto, e em exemplos extremos menores que vão desde a Índia até Birmingham, a não violência fracassou em empoderar suficientemente seus praticantes, enquanto o uso de uma diversidade de táticas obteve resultados. Posto de uma maneira simples: se um movimento não é uma ameaça, não pode mudar um sistema baseado na violência a na coerção centralizada, e se esse movimento não se dá conta nem exercita o poder que o faz ser uma ameaça, ele não pode destruir tal sistema.

No mundo de hoje, governos e corporações controlam quase todo o monopólio do poder, do qual um dos aspectos mais importantes é a violência. A menos que mudemos as relações de poder (e, preferencialmente, destruamos a infraestrutura e a cultura de poder centralizado para tornar impossível a subjugação da maioria por uma minoria), aqueles que atualmente se beneficiam da onipresença da estrutura da violência, que controlam o exército, os bancos, as burocracias, e as corporações, continuarão tomando as decisões. A elite não pode ser persuadida por apelos à sua consciência. Indivíduos que mudam suas ideias e encontram uma moralidade melhor serão despedidos, impedidos, substituídos, desaparecidos, mortos.

Uma e outra vez, pessoas lutando não por alguma reforma tosca mas por uma libertação completa – a recuperação do controle de nossas próprias vidas e o poder de negociar nossas próprias relações com as pessoas e com o mundo ao nosso redor – verão que a não violência não funciona, que lidamos com uma estrutura de poder que se autoperpetua e que é imune a apelos à consciência e forte o suficiente para passar por cima dos desobedientes e pouco cooperativos. Precisamos retomar a história da resistência para entender como falhamos no passado e como exatamente alcançamos o limitado sucesso que conseguimos.

Precisamos aceitar também que todas as lutas sociais, exceto aquelas levadas a cabo por pessoas completamente pacificadas e, portanto, ineficazes, incluem uma diversidade de táticas. Ao perceber que a não violência nunca realmente produziu vitórias históricas em relação a objetivos revolucionários, se abre a porta para considerar outras sérias falhas da não violência.

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Poderia gastar muito tempo falando sobre as falhas da não violência. Contudo, pode ser mais proveitoso eu falar sobre os sucessos da não violência. Dificilmente o pacifismo seria atrativo aos seus defensores se sua ideologia não tivesse produzido vitórias históricas.

Exemplos clássicos são a independência da Índia do governo colonial britânico, alguns esforços contra a corrida das armas nucleares, o movimento dos direitos civis da década de 1960, e o movimento pela paz durante a guerra do Vietnã[1]. Embora ainda não tenham sido proclamados como vitórias, os protestos massivos de 2003 contra a invasão norte-americana no Iraque foram muito aplaudidos pelos ativistas não violentos.

Há um padrão na manipulação e deturpação da história que é evidente em cada uma das vitórias reivindicadas pelos ativistas não violentos. A posição pacifista quer que o sucesso seja atribuído somente às táticas pacifistas, enquanto o resto de nós acredita que a mudança vem de todo o espectro de táticas presentes em qualquer situação revolucionária, desde que sejam efetivamente implantadas.

Isso acontece porque nenhum grande conflito social possui uma uniformidade de táticas e ideologias, o que significa dizer que todos esses conflitos apresentam táticas pacifistas e definitivamente táticas não pacifistas. Mas os pacifistas precisam apagar a história que não concorda com eles ou, alternativamente, culpar suas falhas pela presença ao mesmo tempo de lutas violentas.

Na Índia, a história conta que o povo sob a liderança de Gandhi construiu um movimento massivo não violento durante décadas e envolveu-se em protestos, desobediência civil, boicotes econômicos, exemplares greves de fome e atos de não cooperação para quebrar com o imperialismo britânico. Eles sofreram massacres e responderam com um par de protestos, mas, em sua maioria, o movimento foi não violento e, depois de perseverar durante décadas, o povo indiano ganhou sua independência, fornecendo um marco inegável da vitória pacifista.

A história real é um pouco mais complicada, nela pressões violentas também influenciaram a decisão de retirada britânica. Os britânicos perderam a capacidade de manter o poder colonial após perderem milhões de tropas e uma porção de outros recursos durante as duas extremamente violentas guerras mundiais, nas quais a segunda, em especial, devastou a “terra mãe”.

As lutas armadas dos militantes árabes e judeus na Palestina de 1945 até 1948 enfraqueceram ainda mais o império britânico, e fizeram com que se constituísse uma ameaça clara, a de que os indianos pudessem, em massa, desistir da desobediência civil e partir para as armas se ignorados por muito tempo; esse fato não pode ser desconsiderado como um fator importante na decisão dos britânicos em abandonar a administração colonial direta.

Nos damos conta que esta ameaça é ainda mais direta quando entendemos que a história do pacifismo do movimento de independência da Índia é uma imagem seletiva e incompleta: a não violência não foi universal na Índia. A resistência ao colonialismo britânico teve tamanha militância que o método Gandhiano pode ser visto mais precisamente como uma forma dentre várias de resistência popular.

Como parte de uma padrão universal perturbante, pacifistas apagaram essas outras formas de resistência e ajudaram a propagar a falsa história de que Gandhi e seus discípulos foram o único mastro e leme da resistência indiana. Ignoraram importantes lideranças da militância, como Chandrasekhar Azad, quem combateu na luta armada contra os colonialistas britânicos, e revolucionários como Bhagat Singh, quem ganhou um apoio massivo pelas bombas e assassinatos como parte da luta para alcançar a “derrocada tanto do capitalismo estrangeiro, como do indiano”. A história pacifista da luta indiana não pode fazer sentido algum a partir do fato de que Subhas Chandra Bose, o candidato militante, foi duas vezes eleito presidente do Congresso Nacional Indiano, em 1938 e 1939.

Enquanto Gandhi foi, talvez, a figura mais singularmente influente e popular da luta pela independência da Índia, a posição de liderança que ele assumiu nem sempre satisfez o apoio consistente das massas. Gandhi perdeu muito apoio dos indianos quando “pediu para cancelar o movimento” em meio aos protestos de 1922. Quando mais tarde foi preso pelos britânicos, “não se levantou qualquer onda de protestos na Índia por sua prisão”.

É significativo que a história lembre de Gandhi sobre todos os outros não porque ele representou a voz unânime da Índia, mas por causa de toda a atenção e notoriedade que recebeu da imprensa britânica por ter sido incluído em importantes negociações com o governo colonial britânico. Quando lembramos que a história é escrita pelos vencedores, outro estrato do mito da independência indiana acaba se revelando.

O aspecto mais triste da reivindicação pacifista de que a independência da Índia é uma vitória da não violência é que essa reivindicação atua de forma direta na fabricação histórica realizada pelos interesses da supremacia branca dos Estados imperialistas que colonizaram o sul do mundo. O movimento de libertação da Índia fracassou. Os britânicos não foram forçados a abandonar a Índia. Antes, eles escolheram transferir o território de um controle colonial direto para um controle neocolonial.

Que tipo de vitória permite que o lado perdedor dite o tempo e a maneira como o lado vitorioso ascenderá ao governo? Os britânicos redigiram a nova constituição e entregaram o poder aos seus sucessores, escolhidos a dedo. Eles alimentaram as chamas do separatismo étnico e religioso para que a Índia se dividisse contra si mesma, fazendo com que ficasse privada de alcançar paz e prosperidade, e dependesse de ajuda militar e de outros recursos dos estados euro/americanos.

A Índia continua sendo explorada pelas corporações euro/americanas (apesar de muitas corporações indianas novas, na maioria subsidiárias, terem se juntado à pilhagem), e continua provendo recursos e mercado para os estados imperialistas. Em vários sentidos a pobreza de seu povo se aprofundou e a exploração se tornou mais eficiente. A independência do controle colonial deu à Índia maior autonomia em algumas áreas, e certamente permitiu que um punhado de indianos se sentasse em algumas cadeiras do poder, mas a exploração e a mercantilização dos bens comuns se aprofundaram.

Além disso, a Índia perdeu a oportunidade clara de uma significativa libertação de um opressor estrangeiro facilmente reconhecível. Qualquer movimento de libertação teria agora que lutar contra as dinâmicas confusas do nacionalismo e das rivalidades étnico/religiosas para abolir um capitalismo e um governo que estão muito mais desenvolvidos. Fazendo um balanço geral, o movimento de independência provou ter fracassado.

A reivindicação de uma vitória pacifista na limitação da corrida armamentista nuclear é um pouco bizarra. Novamente, o movimento não foi exclusivamente não violento: incluiu grupos que realizaram uma série de atentados e outros atos de sabotagem ou ainda guerras de guerrilha.

E, novamente, a vitória é duvidosa. Os muito ignorados tratados de não proliferação só aconteceram depois da corrida armamentista ter sido ganha, com a incontestável hegemonia dos Estados Unidos na posse de mais armas nucleares do que até mesmo seria prático ou útil. E parece ser claro que a proliferação continua enquanto for preciso, atualmente, na forma de um desenvolvimento tático nuclear e uma nova onda de propostas para instalações nucleares.

De fato, a questão parece ter sido posta mais como uma questão de política interna dentro do próprio governo do que como um conflito entre o governo e um movimento social. Chernobyl e a possibilidade de outras tantas catástrofes nos Estados Unidos mostraram que a energia nuclear (um componente necessário para o desenvolvimento de armas nucleares) era algo incômodo, e não é preciso um manifestante para questionar a utilidade, até mesmo para um governo determinado a conquistar o mundo, desviando assombrosos recursos para a proliferação nuclear quando já possuía bombas suficientes para explodir o planeta inteiro, e cada guerra e ação encoberta desde 1945 foi combatida com outras tecnologias.

O movimento dos direitos civis nos Estados Unidos é um dos mais importantes episódios da história pacifista. Por todo o mundo, pessoas o veem como um exemplo de uma vitória não violenta. Mas, como em outros exemplos que discutimos aqui, não foi nem vitorioso, nem não violento. O movimento foi bem sucedido em acabar com a segregação de direito e com a expansão da minúscula pequena-burguesia negra, mas essas não eram as únicas demandas da maioria dos participantes do movimento.

Eles queriam total equidade política e econômica, e muitos também queriam a libertação negra na forma de uma nacionalismo negro, ou intercomunalismo negro, ou alguma outra independência do imperialismo branco. Nenhuma dessas demandas foram atendidas – nem equidade e nem, obviamente, libertação.

Pessoas que não são brancas continuam tendo uma renda média menor, piores acessos à habitação e aos tratamentos de saúde, e uma saúde pior do que as pessoas brancas. Segregação de fato ainda existe. Equidade política é outra coisa que também está faltando. Milhões de votantes, a maioria deles negro, são destituídos do direito de votar quando é conveniente para os interesses reinantes, e só houve quatro senadores negros desde a Reconstrução.

Outras raças também ficaram sem os frutos míticos dos direitos civis. Imigrantes latinos e asiáticos são especialmente vulneráveis a abusos, deportação, negação de serviços sociais aos quais eles pagam impostos, e a trabalhos tóxicos e exaustivos em fábricas de trabalho escravo ou ainda como trabalhadores rurais migrantes.

Muçulmanos e árabes estão sofrendo o embate da repressão pós-11 de Setembro, enquanto uma sociedade que define a si mesma como “cega-para-cor” nem sequer percebe sua hipocrisia. Nativos são mantidos tão abaixo na ladeira socioeconômica, como se para permanecerem invisíveis, exceto para as ocasionais manifestações simbólicas do multiculturalismo norte-americano – o mascote esportivo estereotipado ou a boneca hula-girl, que obscurece a realidade atual dos povos indígenas.

A projeção comum (primeiramente pelos progressistas brancos, pacifistas, educadores, historiadores, e oficiais do governo) é que o movimento contra a opressão racial nos Estados Unidos foi primariamente não violento. Ao contrário, apesar de grupos pacifistas como a Conferência das Lideranças Critãs Sulinas (SCLC), de Martin Luther King Jr., possuírem considerável influência e poder, o apoio popular dentro do movimento, especialmente entre pessoas negras e pobres, gravitou crescentemente em torno de grupos revolucionários como o Partido dos Panteras Negras (Black Panther Party).

De acordo com uma pesquisa (Harris, 1970), 66% dos afro-americanos disseram que as atividades do Partido dos Panteras Negras lhes deram orgulho, e 43% disse que o partido representava seu próprio ponto de vista. De fato, lutas armadas sempre foram uma parte importante da resistência dos negros contra a supremacia branca.

Mumia Abu-Jamal marcadamente documenta essa história em seu livro de 2004, We Want Freedom (Nós Queremos Liberdade). Ele escreve: As raízes da resistência armada são profundas na história afro-americana. Somente aqueles que ignoram este fato enxergam o Partido dos Panteras Negras de alguma forma estrangeiro a nossa herança histórica em comum.

Na realidade, os segmentos não violentos não podem ser destilados e separados das partes revolucionárias do movimento (apesar de seguidamente existir entre eles, encorajado pelo governo, alienação e animosidade). Os pacifistas, ativistas negros de classe-média, inclusive King, conseguiram muito de seu poder do espectro da resistência negra e da presença de revolucionários negros armados.

Na primavera de 1963, a campanha em Birmingham de Martin Luther King Jr. parecia uma repetição da ação funesta e falha de Albany, Georgia (onde uma campanha de 9 meses de desobediência civil, em 1961, demonstrou a fraqueza dos manifestantes não violentos contra um governo, com prisões que pareciam não ter fim, e onde, em 24 de Julho de 1962, tumultos juvenis tomaram quarteirões inteiros durante uma noite e forçaram a polícia a se retirar dos guetos, demonstrando que um ano após a campanha não violenta, a população negra de Albany ainda lutava contra o racismo, mas havia perdido sua preferência pela não violência).

No entanto, no dia sete de maio, em Birmingham, após uma violência policial contínua, três mil negros e negras começaram a contra-atacar, jogando garrafas e pedras na polícia. Dois dias depois, Birmingham (alçada até então como um inflexível bastão de segregação) concordou em deixar de segregar as lojas do centro, e o presidente Kennedy apoiou o acordo com garantias federais.

No dia seguinte, depois de pessoas da supremacia branca explodirem uma casa e um comércio negros, milhares de negros foram às ruas novamente, dominando uma área de nove quarteirões, destruindo carros de polícia, ferindo diversos policiais (incluindo o inspetor chefe), e queimando comércios de brancos.

Um mês e um dia depois, o presidente Kennedy chamou o Congresso para passar o decreto dos Direitos Civis, terminando com uma estratégia de vários anos de retardo do movimento por direitos civis. Talvez a maioria das limitadas, senão vazias, vitórias do movimento por direitos civis veio quando a população negra demonstrou que não ficaria pacífica para sempre. Frente às duas alternativas, a estrutura de poder dos brancos escolheu negociar com os pacifistas, e vimos os resultados.

A afirmação que o movimento pacifista estadunidense acabou com a guerra contra o Vietnã possui o usual conjunto de falhas. As críticas foram bem feitas por Ward Churchill e outros, então somente irei resumi-las.

Os ativistas pacifistas ignoram, com uma imperdoável hipocrisia, que três a cinco milhões de indochineses morreram na luta contra o exército estadunidense; que milhares de tropas americanas foram mortas e outras milhares feridas; que outras tropas desmoralizadas pelo derramamento de sangue tornaram-se extremamente ineficazes e revoltosas; e que os Estados Unidos estavam perdendo capital político (e tornando-se fiscalmente falidos) a um ponto em que os políticos pró-guerra começaram a pedir por uma retirada estratégica (especialmente depois que a Ofensiva do Tet provou que a guerra era “invencível”, como nas palavras de muitos daquele tempo).

O governo dos Estados Unidos não foi forçado a retirar-se pelos protestos pacíficos – ele foi derrotado política e militarmente. Como uma evidência disto, Churchill cita a vitória do republicano Richard Nixon, e a falta de até mesmo um candidato antiguerra no Partido Democrata, em 1968, no auge do movimento antiguerra. Poderia-se acrescentar a isso a reeleição de Nixon em 1972, após quatro anos de intensificação do genocídio, para demonstrar a fraqueza do movimento pacifista em intervir nas decisões do poder.

De fato, o movimento pacifista do princípio dissolveu-se junto à retirada das tropas estadunidenses (finalizada em 1973). O movimento foi menos receptivo para aceitar o fato de que a maior campanha de bombardeio jamais vista na história, que mirava civis, se intensificou após a retirada das tropas, ou que continuou a ocupação no Vietnã do Sul através de uma ditadura militar financiada e treinada pelos Estados Unidos.

Em outras palavras, o movimento se retirou (e recompensou Nixon com uma reeleição) uma vez que americanos, e não vietnamitas, estavam longe do perigo. O movimento pacifista americano falhou em trazer a paz. O imperialismo norte-americano continuou imbatível, e, apesar de sua estratégia militar ter sido derrotada pelos vietnamitas, os EUA ainda assim cumpriram com seus objetivos políticos gerais em seu devido tempo, precisamente por causa do fracasso do movimento pacifista em realizar qualquer mudança interna.

Alguns pacifistas irão apontar para o enorme número de “objetores de consciência” que se recusaram a lutar, para salvar alguma aparência de vitória à não violência. Mas deveria ser óbvio que a proliferação de objetores e trapaceiros de alistamentos não pode redimir as táticas pacifistas.

Especialmente em uma tão militarizada sociedade, a possibilidade de soldados recusarem-se a lutar é proporcional às suas expectativas de enfrentar uma oposição violenta que os pode matar ou mutilar. Sem a resistência violenta dos vietnamitas, não teria havido qualquer necessidade para o alistamento, sem o alistamento, a autoconvencida resistência não violenta na América do Norte teria dificilmente existido.

De longe, foi mais significativo do que os passivos “objetores de consciência” foram as crescentes rebeliões, especialmente por negros, latinos, e tropas indígenas, dentro do exército. O plano intencional do governo estadunidense, em resposta às manifestações de negros, de pegar homens negros jovens e desempregados das ruas e colocá-los no exército, saiu pela culatra.

Os oficiais de Washington que visitaram as bases do exército se apavoraram com o desenvolvimento de uma cultura “militante negra” […] Surpresos, teriam que assistir como os oficiais colonizadores locais (brancos) e seriam forçados a devolver saudações aos Novos Africanos (soldados negros) dando-lhes o símbolo do “Poder” (punho levantado) […] Nixon teve que tirar as tropas do Vietnã rapidamente, ou arriscava perder seu exército.

Fragging, sabotagem, recusa ao combate, revoltas nas prisões militares, e ajudas ao inimigo, todas atividades dos soldados norte-americanos, contribuíram significantemente para a decisão do governo dos EUA de retirar as tropas terrestres. Como o Coronel Robert D. Heinl afirmou em Junho de 1971:

A cada indicador concebível, nosso exército que permanece no Vietnã está em um estado que se aproxima do colapso, com unidades individuais evitando ou tendo recusado o combate, matando seus oficiais e sargentos, conduzindo-se às drogas, e desmotivados quando ainda não rebeldes. A situação é quase tão séria no Vietnã como em qualquer outro lugar.

O pentágono estima que 3% dos oficiais e sargentos mortos no Vietnã de 1961 a 1972 sofreram fraggings por suas próprias tropas. Essa estimativa nem sequer leva em consideração mortes por tiro ou esfaqueamento. Em muitas instâncias, soldados de uma unidade juntavam seu dinheiro para recompensar o assassinato de um oficial impopular. Matthew Rinaldi identifica no exército uma “classe trabalhadora negra e latina”, que não se identificava com as “táticas-pacíficas-a-qualquer-custo” do movimento pelos direitos civis que havia chegado antes deles, como os maiores atores da resistência militante que mutilou o exército americano durante a Guerra do Vietnã.

Embora eles fossem menos significativos politicamente do que a resistência no exército em geral, atentados e outros atos de violência em protesto à guerra nos campi das universidades brancas, inclusive na maioria das universidades de elite, não devem ser ignorados em favor das justificativas pacifistas.

No ano escolar de 1969-70 (de setembro a maio), uma estimativa conservadora enumera 174 atentados antiguerra em campi e ao menos 70 atentados fora de campi universitários e outros ataques violentos mirando construções ROTC (Centro de Treinamento de Oficias Reservistas), construções governamentais, e prédios corporativos. Adicionalmente, 230 protestos ocorridos em campi universitários incluíram violência física, e 410 incluíram dano à propriedade.[28]

Concluindo, o que foi uma vitória muito limitada – a retirada das tropas terrestres após muitos anos de guerra – pode ser melhor atribuído a dois fatores: a vitoriosa e continuada resistência violenta vietnamita, a partir da qual os decisores políticos perceberam que não poderiam vencer; e à militante, e frequentemente letal, resistência das tropas terrestres norte-americanas, que foi causada pela desmoralização a partir da violência eficaz de seus inimigos e da difusão da política militante do movimento contemporâneo de libertação dos negros.

O movimento interno contra a guerra claramente preocupou os políticos norte-americanos[29], mas certamente não se tornou poderoso o suficiente para que possamos dizer que forçou o governo a fazer qualquer coisa, e, em qualquer caso, seus elementos mais fortes usaram protestos violentos, atentados, e destruição à propriedade.

Talvez confusos por sua própria história falsa do movimento pacifista durante a Guerra do Vietnã, organizadores pacifistas estadunidenses, no século 21, pareciam esperar uma repetição de uma vitória que nunca aconteceu em seus planos de parar a invasão do Iraque.

Em 15 de fevereiro de 2003, quando o governo dos EUA movia-se em direção à guerra contra o Iraque, “protestos no fim de semana do mundo inteiro por milhões de ativistas contra a guerra enviaram uma dura repreensão para Washington e seus aliados […] A sem precedentes onda de demonstrações […] embaçou ainda mais os planos de guerra dos EUA”, de acordo com um artigo na página da internet do grupo não violento e antiguerra United for Peace and Justice (Unidos pela Paz e pela Justiça).

O artigo, que se orgulha da “propagação massiva do sentimento pacifista”, continua o projeto e diz que a “Casa Branca […] parece ter ficado chocada com a resistência a seu chamado para uma ação militar rápida”. Foram os maiores protestos da história, excetuando-se algumas brigas menores, eles foram inteiramente não violentos, e os organizadores celebraram extensivamente sua tranquilidade e seu caráter massivo.

Alguns grupos, como o United for Peace and Justice, inclusive, sugeriram que os protestos poderiam evitar a guerra. É óbvio que eles estavam totalmente errados, e os protestos foram totalmente ineficazes. A invasão ocorreu como planejado, apesar de que milhares de pessoas nominalmente, pacificamente, e impotentemente opuseram-se a ela. O movimento contra a guerra não fez nada para mudar as relações de poder nos Estados Unidos. Bush recebeu capital político substancial por ter invadido o Iraque, e não se deparou com reação alguma até que o esforço da guerra e da ocupação começaram a aparecer – sinais de fracasso pela eficaz resistência armada do povo iraquiano. A tão chamada oposição nem sequer se manifestou no cenário político oficial. O único candidato antiguerra no Partido Democrata[31], Dennis Kucinich, jamais foi levado a sério como um concorrente, e ele e seus apoiadores eventualmente escondiam suas ideias para juntarem-se à plataforma de apoio do Partido Democrata para a ocupação do Iraque.

Um bom caso de estudo em relação à eficácia dos protestos não violentos pode ser visto no envolvimento da Espanha com a ocupação liderada pelos Estados Unidos. A Espanha, com 1300 tropas, foi uma das maiores sócias subalternas na Coalition of the Willing.

Mais de um milhão de espanhóis protestaram contra a invasão, e 80% da população espanhola dizia ser contrária a ela, mas seu comprometimento com a paz acabou aí – eles não fizeram nada para efetivamente evitar o apoio militar espanhol à invasão e à ocupação. Porque eles permaneceram passivos e não fizeram nada para desapoderar as lideranças, eles permaneceram tão impotentes quanto qualquer cidadão de qualquer democracia.

O primeiro-ministro espanhol Aznar não foi somente autorizado e capaz de ir à guerra, todas as previsões apontavam que ele ganharia a reeleição – antes dos atentados. Em 11 de março de 2004, apenas alguns dias antes da abertura das cabines de votação, múltiplas bombas plantadas por uma célula ligada à Al-Qaeda explodiram nas estações de trem de Madri, matando 191 pessoas e ferindo mais alguns milhares.

Diretamente por causa disso, Aznar e seu partido perderam as eleições, e os Socialistas, o maior partido com uma plataforma antiguerra, foram eleitos ao poder. A coalizão liderada pelos Estados Unidos encolheu com a saída das 1300 tropas espanholas, e, de novo, encolheu imediatamente depois que República Dominicana e Honduras também retiraram suas tropas. Enquanto milhões de ativistas pacíficos votavam nas ruas como boas ovelhas, uma pequena dezena de terroristas disposta a abater não combatentes foi capaz de causar a retirada de mais de mil tropas da ocupação.

As declarações e as ações das células afiliadas à Al-Qaeda não sugerem que eles queiram uma paz significativa no Iraque, nem demonstram alguma preocupação com o bem-estar dos iraquianos (os quais muitos foram por eles explodidos em pedaços), mas mostram alguma preocupação por uma visão particular de como a sociedade iraquiana deveria ser organizada: uma visão que é extremamente autoritária, patriarcal, e fundamentalista.

E, sem dúvida, o que foi possivelmente uma decisão fácil – de matar e ferir centenas de pessoas desarmadas –, embora tal ação possa ter parecido estrategicamente necessária, está conectada ao seu autoritarismo e brutalidade, e mais ainda à cultura intelectual da qual muitos terroristas derivam (apesar disso ser outro tópico).

A moralidade da situação se torna mais complicada quando comparada à campanha estadunidense massiva de bombardeio que matou, intencionalmente, centenas de milhares de civis na Alemanha e no Japão durante a II Guerra Mundial. Mesmo que essa campanha tenha sido muito mais brutal do que os atentados de Madri, geralmente ela é considerada aceitável.

A discrepância que podemos assumir entre condenar as pessoas que colocaram as bombas em Madri (fácil) e condenar os ainda mais sanguinários pilotos americanos (não tão fácil, talvez porque entre eles podemos achar nossos próprios parentes – meu avô, por exemplo) deveria nos fazer questionar se nossa condenação ao terrorismo realmente tem alguma coisa a ver com um respeito pela vida.

Como não estamos lutando por um mundo autoritário, ou um em que o sangue é derramado em conformidade com justificativas racionais calculadas, os atentados de Madri não representam um exemplo de ação, mas antes, um paradoxo importante. As pessoas que aderem a táticas pacíficas – que não provaram ser eficazes em terminar a guerra contra o Iraque – estão realmente mais preocupadas com a vida humana do que os terroristas de Madri?

Afinal, muito mais do que 191 civis iraquianos foram mortos pelas 1.300 tropas instaladas no país. Se alguém precisa morrer (e a invasão americana faz essa tragédia ser inevitável), cidadãos espanhóis possuem mais culpa do que iraquianos (assim como cidadãos alemães e japoneses têm mais culpa do que outras vítimas da II Guerra Mundial).

Até o momento, nenhuma alternativa ao terrorismo foi desenvolvida dentro – da barriga relativamente vulnerável – da Besta para substancialmente enfraquecer a ocupação. Por isso, a única resistência real está ocorrendo no Iraque, onde os EUA e seus aliados estão mais preparados para se encontrar com ela, ao grande custo das vidas das guerrilhas e dos não combatentes.

Isso para vermos o quanto vale as vitórias do pacifismo.

Também ajudaria a entender os fracassos do alcance dessas ideias um exemplo controverso mas necessário, o do Holocausto[34]. Em grande parte do “devorador” (como é chamado o Holocausto em Roma), a resistência militar não foi totalmente ausente, dessa forma, podemos medir a eficácia da resistência pacifista independentemente.

O Holocausto é também um dos poucos fenômenos em que a responsabilização das vítimas é vista corretamente como um suporte ou simpatia ao opressor, assim, as revoltas ocasionais em oposição ao Holocausto não podem ser usadas para justificar a repressão e o genocídio, como acontece em outros lugares quando pacifistas responsabilizam a violência das autoridades pela audácia dos oprimidos em tomar a ação direta militar contra essa autoridade.

Alguns pacifistas foram muito ousados ao usar exemplos de resistência aos Nazistas, como a desobediência civil levada pelos dinamarqueses, ao sugerir que a resistência não violenta pode funcionar até mesmo nas piores condições. É realmente necessário apontar que os dinamarqueses, enquanto arianos, enfrentaram uma série de consequências pela resistência um tanto diferentes do que as primeiras vítimas dos nazistas?

O Holocausto somente terminou pela combinada e esmagadora violência dos governos Aliados, que destruíram o Estado Nazista. Embora, para ser honesto, eles tenham se preocupado muito mais em redesenhar o mapa da Europa do que salvar vidas de cidadãos de Roma, judeus, gays, esquerdistas, prisioneiros de guerra soviéticos, e outros. Inclusive, soviéticos tenderam a “expurgar” prisioneiros de guerra resgatados, temendo que mesmo que eles não fossem culpados pela deserção ao renderem-se, seu contato com estrangeiros nos campos de concentração os tivesse contaminado ideologicamente.

As vítimas do Holocausto, entretanto, não foram completamente passivas. Um grande número delas agiu para salvar vidas e para sabotar a máquina mortal nazista. Yehuda Bauer, quem lida exclusivamente com as vítimas judias do Holocausto, documenta enfaticamente essa resistência. Até 1942, “rabinos e outras lideranças […] desaconselharam pegar em armas”, mas eles não aconselharam passividade, preferencialmente, “a resistência era não violenta”.

Claramente, não diminuiu o genocídio ou enfraqueceu os nazistas de nenhuma forma mensurável. No início de 1942, judeus começaram a resistir violentamente, apesar de ainda terem muitos exemplos de resistência não violenta. Em 1943, pessoas na Dinamarca ajudaram a maioria dos milhares de judeus do país a escapar para a neutra Suécia. De maneira semelhante, no mesmo ano, o governo, a Igreja, e o povo da Bulgária pararam a deportação de judeus de seu país.

Em ambos casos, os judeus resgatados foram, no fim das contas, protegidos por forças militares e mantidos seguros pelas fronteiras de um país que não estava sob ocupação direta germânica, em um momento em que a guerra começava a parecer sombria para os nazistas (por causa da violenta investida dos soviéticos, os nazistas temporariamente negligenciaram a pequena frustração de seus planos pela Suécia e pela Bulgária). Em 1941, os habitantes de um gueto em Vilnius, na Lituânia, conduziram uma sentada[38] massiva quando os nazistas e as autoridades locais se preparam para deportá-los. Esse ato de desobediência civil pode ter atrasado um pouco a deportação, mas falhou em salvar qualquer vida.

Alguns líderes dos Judenrats, os Conselhos Judeus estabelecidos pelos nazistas para governarem os guetos em complacência com suas ordens, apoiaram os nazistas em uma tentativa de não mudar o status quo, com a esperança de que o maior número possível de judeus ainda estivesse vivo ao final da guerra. (Esse é um bom exemplo porque muitos pacifistas nos EUA hoje também acreditam que se você está abalando o status quo ou causando conflitos, você está fazendo algo errado.)

Bauer escreve: “Ao final, a estratégia falhou, e aqueles que tentaram usá-la descobriram com horror que eles haviam se tornado cúmplices do plano nazista de assassinatos”. Outros membros dos Conselhos Judeus foram mais ousados, e recusaram abertamente a cooperar com os nazistas.

Em Lvov, na Polônia, o primeiro presidente do conselho recusou a cooperar, e foi devidamente morto e substituído. Como Bauer aponta, as substituições eram muito mais complacentes (embora até mesmo a obediência não os salvasse, uma vez que eles eram todos conduzidos aos campos de extermínio; no caso específico de Lvov, o substituto foi morto mesmo assim, apenas pela suspeita de resistência). Em Borszczow, na Polônia, o presidente do conselho se recusou a cumprir ordens nazistas, e foi enviado para o campo de extermínio de Belzec.

Outros membros dos conselhos usaram uma diversidade de táticas, e elas foram claramente mais eficientes. Em Kovno, na Lituânia, eles fingiram cumprir as ordens nazistas, mas eram secretamente parte da resistência. Eles, com sucesso, esconderam crianças que seriam deportadas e tiraram jovens dos guetos para que pudessem lutar junto aos partisans.

Na França, “ambas seções dos conselhos pertenciam à clandestinidade e estavam em contato constante com a resistência […] e contribuíram significativamente com os salvamentos da maioria dos judeus no país”. Mesmo onde eles não tomaram pessoalmente parte da resistência, eles multiplicaram imensamente sua efetividade ao apoiar aqueles que a faziam.

E também havia as guerrilhas urbanas e os partisans que lutaram violentamente contra os nazistas. Em abril e maio de 1943, judeus no gueto de Varsóvia levantaram-se com armas clandestinas, roubadas e feitas em casa. Setecentos homens e mulheres jovens lutaram por semanas, até a morte, imobilizando milhares de tropas nazistas e outros recursos necessários para o colapso da Frente Oriental.

Eles sabiam que seriam mortos sendo pacíficos ou não. Por rebelarem-se violentamente, viveram as últimas semanas de suas vidas em resistência e liberdade, e reduziram a máquina de guerra nazista. Outra rebelião armada eclodiu no gueto de Bialystok, na Polônia, em 16 de agosto de 1943, e continuou por semanas.

Guerrilhas urbanas, como um grupo composto por judeus sionistas e comunistas em Cracóvia, com sucesso, explodiram trens de suprimentos e ferrovias, sabotaram fábricas de guerra, e assassinaram oficiais do governo. Judeus e outros grupos partisans, em toda parte da Polônia, Tchecoslováquia, Belarus, Ucrânia, e dos países bálticos, também realizaram atos de sabotagem às linhas de abastecimento germânicas e lutaram contra as tropas da SS.

De acordo com Bauer, “No leste polonês, Lituânia, e na União Soviética ocidental, ao menos 15000 judeus partisans lutaram nas matas, e pelo menos 5000 judeus desarmados lá viveram, protegidos – todo ou parte do tempo – pelos combatentes”.

Na Polônia, um grupo de partisans liderado pelos irmãos Belksy salvou mais de 1200 homens, mulheres e crianças judeus, em parte por levar a cabo mortes por vingança contra aqueles que atuaram como delatores ou que indicavam os fugitivos.

Grupos semelhantes partisans na França e na Bélgica sabotaram a infraestrutura da guerra, assassinaram oficiais nazistas, e ajudaram pessoas a escapar dos campos de concentração. Um grupo de judeus comunistas na Bélgica descarrilhou um trem que levava pessoas para Auschwitz, e ajudou muitas centenas deles a escapar. Durante a rebelião no campo de concentração de Sobibor, em outubro de 1943, resistentes mataram vários oficiais nazistas e permitiram que 400 dos 600 presos escapassem. A maioria foi rapidamente morta, mas por volta de 60 deles sobreviveram e se juntaram aos partisans.

Dois dias depois da revolta, Sobibor foi fechada. Uma rebelião em Treblinka, em agosto de 1943, destruiu aquele campo de concentração, e ele não foi reconstruído. Os participantes de outra insurreição em Auschwitz, em outubro de 1944, destruíram um dos crematórios. Todas esses levantes violentos retardaram o Holocausto. Em comparação, táticas não violentas (e, dito isso, os governos Aliados, cujos bombardeiros poderiam ter facilmente alcançado Auschwitz e outros campos) fracassaram em destruir ou fechar qualquer campo de concentração antes do fim da guerra.

No Holocausto, e em exemplos extremos menores que vão desde a Índia até Birmingham, a não violência fracassou em empoderar suficientemente seus praticantes, enquanto o uso de uma diversidade de táticas obteve resultados. Posto de uma maneira simples: se um movimento não é uma ameaça, não pode mudar um sistema baseado na violência a na coerção centralizada, e se esse movimento não se dá conta nem exercita o poder que o faz ser uma ameaça, ele não pode destruir tal sistema.

No mundo de hoje, governos e corporações controlam quase todo o monopólio do poder, do qual um dos aspectos mais importantes é a violência. A menos que mudemos as relações de poder (e, preferencialmente, destruamos a infraestrutura e a cultura de poder centralizado para tornar impossível a subjugação da maioria por uma minoria), aqueles que atualmente se beneficiam da onipresença da estrutura da violência, que controlam o exército, os bancos, as burocracias, e as corporações, continuarão tomando as decisões. A elite não pode ser persuadida por apelos à sua consciência. Indivíduos que mudam suas ideias e encontram uma moralidade melhor serão despedidos, impedidos, substituídos, desaparecidos, mortos.

Uma e outra vez, pessoas lutando não por alguma reforma tosca mas por uma libertação completa – a recuperação do controle de nossas próprias vidas e o poder de negociar nossas próprias relações com as pessoas e com o mundo ao nosso redor – verão que a não violência não funciona, que lidamos com uma estrutura de poder que se autoperpetua e que é imune a apelos à consciência e forte o suficiente para passar por cima dos desobedientes e pouco cooperativos. Precisamos retomar a história da resistência para entender como falhamos no passado e como exatamente alcançamos o limitado sucesso que conseguimos.

Precisamos aceitar também que todas as lutas sociais, exceto aquelas levadas a cabo por pessoas completamente pacificadas e, portanto, ineficazes, incluem uma diversidade de táticas. Ao perceber que a não violência nunca realmente produziu vitórias históricas em relação a objetivos revolucionários, se abre a porta para considerar outras sérias falhas da não violência.

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